Naufrágios

de Leandro Resende

I – A parede

Uma lasca cinza paralela. Sujo leve em degradê. A parede escora o homem que escora a parede. A situação transitória para quem ali transita rápido pode sim ser permanente para quem observa do 3º andar do prédio em frente há horas. O tempo não passa na parede cinza. O tempo vaga no degradê, no incêndio neutro de cinzas. Era a parede inerte e gelada. Era o homem reto, espreitando, vendo.

Sem perder a parede, ele cata um jornal que passa – notícias da cidade. A perna direita fixa no chão. E escorado com a perna esquerda, dando suporte àquele mundo cinza, que era dele em sua imensidão degradê. Notícias de pessoas da cidade. Firma-se bem e equilibra todo prédio cinza que tem atrás de si. Firma-o. Um mundo cinza e sem sentimento.

O dia passou e a quem passava era transitório. Ele já não lia o jornal. Jogou no chão, o vento puxou para um lado, para outro. O papel transitou até sumir. O dia atravessou a cidade e as notícias foram crescendo como grama e sem sentimento. Um mundo cinza germinava.

Aos poucos, o pé que sustentava a parede e o homem num equilíbrio quase exato – alguns cambaleamentos denunciavam a fragilidade da obra – foi sendo engolido. As costas, ombro e o resto do corpo também. A parede foi sugando aquele resíduo da cidade. Naufrágio. No fim, ficou uma mancha, uma sombra inexata, mas proporcional.

II – Um cachorro na chuva

O vento varria folhas e lixo. Um cão corria dentro do vento. Alcançando-o. Logo o perdia. O vento variava de tamanho e forma. O vento ora sorria. Gemia em sonoros gestos de vento feliz com a vida. No meio daquilo tudo, um cachorro latindo. Para um despercebido pedestre, poderia ser uma performance de circo ou o cão sofrendo um ataque de isentos violentos e esfomeados. Mas não era mais do que um cão desapegado das vaidades e formalidades da vida, sem qualquer responsabilidade ou agenda.

Logo veio a chuva. A chuva arrastou o cão. Nas águas profundas da solidão da chuva, que afasta os cautelosos, os amedrontados ou preguiçosos para dentro de suas casas. O cão não deu bola. Quis a chuva e ela também o quis. Logo ele nadava e se desenvolvia em líquido. Do cão, sobrou uma tosca coleira sobre a calçada com um Duque raspado à mão com uma faca de cozinha.

III – Catador de pet

Era aquela rua de sempre – asfalto, lixeiras e postes normais –, só que sacos de lixo azuis. Outrora, naquele horário, eram sacos plásticos pretos com restos do consumo das casas e prédios. Era madrugada. Poucas sombras novas. Da janela de um prédio, com quase nenhuma lâmpada acesa, uma mulher guarda a rua. Espera amanhecer ansiosa para fazer as três refeições, televisão, campanhinha e telefonemas, shopping, remédios e depois voltar para a janela. Guardiã de um mudo pedaço de foto de poucos movimentos ou sons novos.

E, embaixo do banco de aço do ponto de ônibus, lá estava ele. O catador de garrafas pet, no seu sono profundo, coberto por uma manta de jornais que o braço prendia ao corpo. O vento até insistia em roubá-los com a arrogância de ser natureza. Mesmo dormindo, era raro ele perder uma folha que fosse do jornal. As notícias o esquentava.

Toda madrugada ele chegava. Jogava as garrafas no lote ao lado. Todas amarradas uma a outra. Centenas. Um serviço bem feito, percebia ela lá de cima. Não gastava mais do que 20 centímetros de barbante para cada junção de duas garrafas. Era bom em nó também.

Antes era melhor que hoje, pensava. Todo mundo agora quer guardar as garrafas. Sobra menos para ele. Se a gente não jogar as garrafas no lixo, esse moço vai fazer o quê? E os barbantes? E o nó? E tudo que ele sabe, que aprendeu?

Enquanto ela refletia, nem percebeu que o catador de pet estava sendo sugado, como num sonho e sem interromper seu sono, pela calçada. Logo ele se foi e os jornais voaram ao vento. Ela nem percebeu, ninguém notou. Ficou apenas uma mancha disforme e que depois a chuva lavou.


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