Nova Iorque by Nigth

de Maurício Melo Júnior

Um barco num cais. O balançar monótono das ondas breves num rio. Princípio de noite.

Julio Iglesias atira na água resto de um cigarro já findo e pisa o assoalho úmido no ritmo de uma canção antiga. Tom de tédio no sol que há pouco se apagou. A escuridão desce carregando mistérios. A última fumaça salta dos pulmões sem refletir as derradeiras luzes do crepúsculo. A melancolia inaugural da noite, a vontade de cantar, cantarolar um bolero para a platéia esquecida nos desvãos do crepúsculo. Nada mais além do vento agreste que lhe eriça a pele. Fecha um pouco o paletó, guardião de uma elegância antiga.

A cidade parece irremediavelmente vazia, algo pra lá dos feriados, das catástrofes milenares. Uma praga egípcia, bíblica, a ausência de almas, a presença da solidão, a poeira de demolições que apagam a história. Um artista popular sem o afago do público, um solitário que deixa o cais.

A alegria do dia solar morreu na notícia chegada pelo telefone que carregava sempre. Estava no barco, no vão do rio. De um lugar distante, mas nem tanto, alguém informa. O espetáculo foi cancelado, infelizmente. É a crise.

A desolação é reflexo dela, da crise. Ninguém será o mesmo depois de sua passagem – o Ogro onipresente, mítico. Turistas esvanecidos, casas à venda, seca no pasto a gordura do boi, bóia no balcão o peixe inútil. Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio. Já não existe o mesmo homem, já não existe o mesmo rio. E o mar revolto se deita sobre as águas mansas, uma escuridão com dores e dramas.

Há os que se matam.

Vagos pensamentos, os de Júlio, o artista popular, o que abandona a esperança de dias melhores.

Na bonança se veste colorida a cidade. As moças bailam, os moços bebem, os senhores contam riquezas, as senhoras vão à missa. Uma vida sem surpresas, previsível. As ruas tomadas pela multidão, o som estridente invade os ouvidos e tudo se transmuta em risos e lágrimas felizes. Casamentos nascem e morrem com a naturalidade dos dias. Tudo de moderno desaba sobre o mundo despido de fronteiras, o cosmopolitismo entranhado em cada centímetro do chão. E as pessoas bailam em todos os ritmos e línguas. Julio no palco e na glória, solta a voz sussurrada, o riso cafajeste de um personagem de filme B, luz noir, tudo tão metade do século passado.

Sem perspectiva de renovação, a festa é real e as pessoas felizes.

No outro extremo da estrada, onde agora passeia Julio, se concentra o monstro, o estágio da crise, a baixa esperança. Os homens desocupados bebem no bar escuro. As moças não saem às ruas, freqüentam as filas de recolocação, os cursos de reciclagem. Julio aperta ainda mais o paletó e caminha na escuridão apenas amenizada pela iluminação pública. Sente pena do mundo.

Seu avô, o combatente da Guerra Civil, o que morreu para deixar grávida uma viúva, contam, dizia que as realidades são construídas pela mão do homem. Isso o levou à guerra, por isso deixou a mulher com a barriga farta de vida, mas morta de fome até migrar para não ser engolida pela miséria. Refizeram a vida modesta, a espanhola e o filho.

Agora, no nascer do novo século, Julio Iglesias pisa forte no assoalho seco da rua, se enche de certeza: ainda pode retomar os sonhos. Sua razão não se perdeu, ainda há um palco aberto para a praça.
No bar pediu conhaque, acendeu um cigarro e rabiscou livremente num guardanapo.

Senhor Prefeito, os nova-iorquinos não merecem o fim da festa. Respeite nossas tradições. Não é uma crise que vai calar nossa voz. Salve a Festa do Caju. Salve Nova Iorque. Salve o Maranhão. Julio Iglesias Pereira, um artista popular.

Entregaria o papel antes que o sol nascesse.


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