O pão nosso de cada dia

de Susana Fuentes

A livraria, enfim. Quando vê televisão, adoece. Inerte, seu corpo pesa, acaba a ação, o desejo, um corpo. Aí vinha a pílula em palavras, e o livro no balcão da livraria a curava de sua ausência. Sua ausência de agir. Por isso ela precisava sair, caminhar até a livraria. Naquelas condições de inércia, o livro em casa já não era remédio, já não surtia efeito. Era como um produto exposto, o vendedor explica muito bem o manuseio, mas ao freguês, a sós em sua casa, resta ficar um diante do outro, sem saber o que acionar primeiro. Precisava de um ritual, um espaço que a sacudisse e a jogasse de volta ao livro.

Na livraria, quando fecha o livro, a capa dura sobre o papel macio, um puf das páginas e depois toc toc com a mão fechada, com os ossinhos dos dedos. As articulações médias dos dedos têm aí função perfeita, se não existissem portas, apenas campainhas ou palmas em ôooo de casa ao pé da janela, já aí estas articulações no meio dos dedos teriam sentido em existir.

Mas o gesto primordial é o de bater à porta. Ou aquele de tocar, de mãos fechadas, os semitons nos dentes negros do piano. Com estes nozinhos que à mão fechada embranquecidos ficam, falta-lhes sangue, e quando os dedos se esticam sobram em rugas. Certa vez Joana perguntou à faxineira para que lhe serviam as articulações médias dos dedos das mãos. A faxineira a olhou com uma cara de pena e respondeu: Eu? Não as uso para nada. Ainda a um velho amigo conseguiu arrancar um gesto: Sujou, gíria antiga, esfrega-se as costas dos dedos na blusa, não apenas isso, acompanha o gesto um certo olhar apreensivo, direcionado a ambos os lados, enquanto se esfrega a blusa.

O que é dar batidas à porta. Mais do que para bater, precisamos destas articulações todas dos dedos para girar maçanetas. Joana se move, as mãos repousam em curva uniforme sob o livro como se colhessem conchas. No livro, a gravura, as mãos de Michelangelo na capela Sistina quase se tocam em dedos esticados, todos apontam, quase todos eles. Joana sabe que outras são as articulações prontas ao ataque de um soco, mas não haverá de experimentar o que é dar em alguém um murro, mas bem sabe o que é dar murros à massa. Os padeiros em seu maquinário terão pulado esta etapa e perdido a chance de socar a massa, a não ser que também em casa façam seu próprio pão.

O livreiro seu amigo lhe apontou num livro: você conhece este poema. Joana releu as últimas quatro linhas. Ah, João, num dia desses tudo se encaixa, as coisas começam a acontecer, e aí nossa vida entra no eixo. Nas pequenas coisas. Nas pequenas coisas. Joana sentiu o cheiro de pão, o pão saindo do forno, ali também batemos, toc toc, com os ossinhos dos dedos. Sei se está quente pelo barulho. Bem no centro – oco, crocante, na casca dura partida ao meio o miolo mole do pão soltará fumaça – quente – fervendo.


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