Olhos fechados, o chão do quarto

de Luiz Antônio Gusmão

Olhos fechados. A mão direita no chão do quarto consolida em meu corpo a estabilidade transitória, que em breve será esquecida, quando o calor que transmito ao chão e produz esta sensação de ordem e sólida presença subitamente abrir uma coceira dentro da espessura dos ossos que compõem esta mão a tocar o chão do quarto. Sentado no chão do quarto, escrutino a composição dos meus ossos. Sei que estou calado, mas é minha própria voz que escuto dolorosamente despregar-se do escuro entre as sombras em que o sangue espesso se distende. Viro o rosto para o lado – eis-me de volta ao momento em que desperto e abro os olhos: eu a vejo na minha frente. Se abro agora os olhos, terei uma parede branca à minha frente, nenhuma voz a me chamar, este sangue latejante e a coceira dentro dos ossos. Não abrir os olhos. Manter aceso seu rosto embaçado pelo sono e a miopia. Consolidar seu rosto branco, seus olhos fixos e acesos por trás dos véus do sono e da miopia. Agora eu desperto completamente: seu rosto revela-se íntegro à minha frente. Naquela manhã, nos amamos no chão do quarto. Não movo um milímetro sequer a mão direita que lateja no chão do quarto. E, no entanto, tudo se movimenta. Acesso o espaço da vertigem, este ácido da avidez sobre a carne dos meus olhos fechados. A cada vez que a mão direita lateja no chão quarto, ossos se partem. De quem é esta voz nas voltas do sangue espesso que se distende? Naquele beijo minha boca soube a sangue. Uma voz pronuncia o meu nome. A coceira dentro dos ossos implode minha mão. Meu corpo desmorona no chão. Adentro a escuridão à minha frente.


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