Michiko

Erwin Maack


Existe um temor no Japão de que a sociedade japonesa seja um telhado de telhas, mantido no lugar pelo posicionamento cuidadoso de cada membro e que, se um falhar, a estrutura toda começará a se desfazer. Não é verdade, claro. Mas a eficácia de um medo nada tem a ver com a sua realidade. As telhas, mantidas no lugar como ondas permanentes, são mais fortes do que parecem. Em telhados antigos, crescem musgos, ervas e capins e até touceiras ocasionais de flores silvestres.

Will Ferguson, De carona com o Buda.

Ontem fiquei emocionada ao ver a aparência esgotada de minha amiga de tantos anos. Veio após três meses de agonia do marido, agonia decorrente da doença causada por um agente adormecido durante os últimos vinte anos no corpo daquele engenheiro. Ao acordar, matou-o. Trabalhou nos projetos da NASA (Apolo, Saturno, Ônibus Espaciais). Quase dois metros de altura, claro, olhos azuis, forte e agora morto. A única equivalência entre ambos: cento e cinquenta. Os quilos e os centímetros de um e de outro tem a mesma expressão numérica.

Trouxe consigo o passado sorridente, desconfortável e distante, recém-chegada do Japão, onde – conta – aprendeu com sua professora primária a ser uma boa pessoa, para impressionar os americanos. Eles perceberiam que japoneses também eram humanos, e humanos de ótima qualidade. Para ser uma boa pessoa: cumprir seu dever sem descanso. As filas na escola, com músicas marciais, e as saudações ao diretor da escola eram lembradas até hoje. Filas de três em três, calculadas com base na altura do menor ao maior.

Ela também me contou a história da mãe, a viagem que a mãe fez para Xangai a fim de que seu irmão cuidasse dela. Afinal, com vinte e três anos, ainda não casada, estava muito próxima de ficar solteira para sempre. O seu ex-noivo fora mandado para a Manchúria e lá se casou. Gastava pelo menos uma hora para pentear seu cabelo. Shimada é o estilo do penteado, lembrando as asas da borboleta. Mantinha a pequena tonsura no alto da cabeça, símbolo de sua virgindade, conforme a tradição. Na China, encontrou o marido. Homem disciplinado, soldado, batalhador e pobre. O irmão era intendente do exército de ocupação. Cuidou bem da família até que todos os seus bens foram confiscados. Fugiram de lá, assim como fizeram os ingleses, algum tempo antes, e durante a travessia viram o clarão magnífico, dissuasório, estremecedor e aterrorizante, anunciando o final da guerra.

Não obtiveram autorização das autoridades americanas para desembarcar em sua cidade, foram alojados numa ilha próxima. Conseguiram sobreviver na cidade até os anos sessenta. Resolveram tentar a vida na América do Sul. Ao mesmo tempo em que multidões se reuniam para protestar com as guerras. Pessoas com faixas, dizeres, e protestos que berravam: Wernher von Braun – Pai da Bomba.

Chegaram a São Paulo pouco antes da morte de Massateru Hokubaru. Ele emigrara em 25 de abril de 1.918, junto com outros mil e oitocentos japoneses sonhadores. Ele testemunhou daqui a derrota de sua pátria, custando a acreditar no que via. Lutou contra seus amigos derrotistas. Acabou por encerrar um ciclo e se tornou brasileiro.

Michiko veio numa das sucessivas ondas que o mar lançara às praias do Brasil. Ela veio atestando a derrota naquela batalha. Os tufões que salvaram o país da invasão de Kublai Khan em tempos passados se recusaram a aparecer.

“Segundo a mitologia japonesa, o Japão foi primeiramente criado na mente da deusa Amaterasu e se manifestou em forma após a declaração divina anunciando a descida do ideal celestial sobre a Terra: Um país que perdurará por infinitos anos é a terra governada por gerações e gerações pelos meus filhos e netos”.

Estudou e tentou a vida trabalhando. Parecia ao mesmo tempo gostar da liberdade que encontrou e não gostar da forma como as coisas eram feitas. Viajou para a América e lá se casou. Passou a viver no Utah, enfrentou e venceu todas as resistências.

A nossa amizade sobreviveu por meio das cartas e das sucessivas vindas ao Brasil. Uma dessas deve ser mencionada. Aquela feita após o “onze de setembro”. Veio só, o marido não suportava a idéia de viajar de avião sem que a cabine fosse blindada. Não correria o risco. Além do mais, o clima equatorial seria desastroso para a sua saúde. Jantamos em casa. Ao final, deitou- se, pálida, no terraço. Pediu para segurar minha mão. Estava gelada. Queixou-se de dores no peito. Imaginei o pior. Consegui encontrar um médico que a medicou e estabilizou. Dias depois, piorou novamente e voltou de imediato para casa. Estava preocupada com o marido, já doente, e não conseguia pensar em mais nada. Escreveu-me de lá, para agradecer a minha hospitalidade, criticou o tratamento médico que recebera e finalmente encontrou um médico, da Califórnia, que compreendeu seu problema. Estava bem.

Escreveu entusiasmada com as eleições. Preocupava-se com o domínio dos candidatos de extrema esquerda. Uma política liberal em excesso pioraria todos os problemas do país. Acreditava que o governo eleito poderia chegar a soluções se conseguisse reunir em torno de si as forças mais conservadoras da nação. Decepcionou-se progressivamente.

Agora veio – viúva e pensionista – e passou o dia comigo. Trouxe presentes para mim (O boné do marido como recordação, da “National Rifle Association”.) e para minha filha (Um curso de inglês da “Berlitz”.). Estava com uma fala alegre. Ela sempre sorri e mantém uma distância segura. Uma rota de fuga. Engajada, como sempre, comentou que uma nação como aquela não pode ter como programa de governo apenas uma palavra: “Change”. Definitivamente estavam – declarou – sendo governados pela esquerda. Bastava ser homossexual, afrodescendente ou ser de alguma minoria, para se eleger representante popular.

Trouxe uma parte das cinzas do marido para colocar no Pavilhão Dourado (Kinkakuji), um templo xintoísta, réplica do templo de Kyoto, antiga capital imperial. Lá elas servirão como exemplo para a família e seus descendentes e visitantes. Ficou indignada com o fato de a sua bagagem ter sido violada. A urna que continha o pó, apesar de declarado, alarmou a segurança.

Corremos o dia todo para religar a eletricidade, a água e o telefone na casa de sua mãe. Todos os fornecimentos foram interrompidos e a mãe foi interrompendo suas necessidades simultaneamente. Não lia mais durante a noite, cozinhava com fogareiro e a água foi comprada ou emprestada. Jamais conseguiu falar português.

Estávamos exaustas. Aceitou um chá, mencionando que até hoje se correspondia com sua professora, agora com oitenta anos e ainda escrevendo com uma caligrafia magnífica. Na última carta conta que os chineses exportaram chá contaminado, causando sério problema de abastecimento aos japoneses. E exclama: os chineses jamais esquecerão a guerra. Triste, não?

Pela primeira vez me conta de sua cidade natal. Dos amigos, parentes que ainda residem lá. Colocou anúncio no jornal local para encontrá-los. Ela veio de Nagasaki, a cidade que é o portal tradicional para entrada da China. Conta também que jamais mencionou o nome da sua cidade nas conversas entre americanos. Ela não queria causar embaraços inúteis.

Percebo que ela é não é só uma pessoa, mas uma ilha que emigrou. Ela mostra as respostas mais extraordinárias para as perguntas mais comuns. Mencionou o fato de nossas vidas serem muito ordinárias e parecidas, com diferenças insignificantes nas narrativas e nos resultados. O verdadeiro drama está no desenlace. Acrescentou: nós valorizamos a morte. Contemplamos as cerejeiras, as flores silvestres, a lua da colheita, as folhas de outono e a neve em templos antigos.

Ela se veste com uma roupa ocidental, apenas o seu penteado remete ao tradicional, enfeitado agora por duas mechas brancas. Conseguiu comprar um quimono parecido com aquele que sua mãe descreveu, na sua juventude, e que foi vendido em troca da passagem para a retirada da família. A mãe vendeu, ela resgatou. Na primeira fuga, eles perderam o embarque. E aquela embarcação foi a pique atacada por um torpedo. Agora, confidencia, tem um namorado, chamado Lafcadio, conhecedor profundo da cultura japonesa. Se ele não quiser se mudar de Utah e não pretender se casar, com ele recomeçarei minha vida.


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