A morte e a donzela

de Lúcia Bettencourt

Todos os dias lia o obituário, com interesse, para descobrir ali um viúvo inconsolável nas cercanias. Mas os anúncios a decepcionavam. Quase sempre os mortos eram homens. E as mulheres que morriam deixavam netos, bisnetos mesmo, mas não havia menção a viúvo. Também, se houvesse, quem é que ia querer um velhinho reumático e triste, provavelmente com câncer de próstata, ou seja, inutilizável?

Ela se pegava sonhando com acidentes ou balas-perdidas, exterminadores de mulheres dos 40 aos 50 anos, que deixassem viúvos bem sucedidos na faixa dos 45 a 55. No dia em que encontrasse um obituário desses, já tinha separado um vestido numa bela estampa preto e branca, meias fumê, sapatos de salto não muito alto. Se fosse no inverno, o vestido se complementaria com um blazer preto, bem cortado, e um lenço de seda no pescoço, o que lhe daria um certo ar francês, muito elegante. Iria na missa de sétimo dia. Com certeza o viúvo, amparado por uma filha ou, melhor ainda, um viúvo sem filhos, amparado por um cunhado solícito, notaria a sua entrada e ficaria um pouco intrigado, tentando lembrar de onde a conhecia.

Doralice esperaria para trocar duas palavras com ele na fila de cumprimentos. Ela se deixaria ficar pelos bancos da igreja até que as pessoas começassem a sair e então iria, com rosto compungido, até o homem. Diria apenas:

– Uma grande perda! Principalmente neste momento, quando ela planejava mudar tudo!

O homem ficaria perplexo e pensaria nas palavras de Doralice, e, logicamente, em casa, ao remoer as palavras, lembraria também da própria Doralice, de sua roupa elegante, seu aperto de mão firme e caloroso, suas pernas bem torneadas, envoltas nas meias fumês, tão sexy.

Na missa de trigésimo dia, o viúvo estaria à sua espera, ansioso para saber mais sobre sua falecida e misteriosa mulher. O que será que ela andava pensando em mudar? Ela não tinha lhe dito nada, aqueles planos eram uma surpresa para ele. Se bem que, nos últimos tempos, ela estivesse meio calada, um pouco tristonha… Ou então, talvez ela estivesse anormalmente agitada, elétrica mesmo, com um gás que nunca tinha demonstrado antes.

Doralice, desta vez, usaria seu vestido verde garrafa, tão escuro que parecia negro. Mas o tom de verde acentuava seus olhos e cabelos, e os brincos de pérola iluminariam seu rosto, numa elegância singela.

O viúvo, ao vê-la entrar na Igreja, se empertigaria, mas ela, discreta sentaria num banco lá atrás, próximo à saída. O viúvo, inúmeras vezes, olharia para trás, tentando vislumbrá-la. Sorriria para ela. Talvez até lhe acenasse. Ela ficaria até o final, mas não iria para a fila de cumprimentos. O pobre homem, assediado pelos amigos e já por algumas amigas que estivessem fiando suas teias, procuraria com os olhos aquela que poderia desvendar o mistério que agora o asombrava, mas Doralice se deixaria ficar escondida entre as colunas, em algum recanto, e daria um jeito de só se deixar ver quando ele já estivesse saindo da Igreja.

Seria com emoção que ele estenderia a mão, um pouco trêmula – não, isso não, podia ser sinal de Parkinson – a mão firme, mas delicada, e lhe tocaria o braço. Doralice se corrigia de novo: o braço não. O ombro era melhor. Assim ele podia deixar a mão sobre seu ombro enquanto lhe perguntava alguma coisa banal, tentando iniciar uma conversação, e depois, naturalmente, a mão esquecida desceria lentamente sobre seu braço, numa imperceptível carícia, e lhe seguraria o pulso, temeroso de que aquela mulher, a única que poderia lhe elucidar as questões sobre as mudanças planejadas pela falecida, lhe escapasse.

Ele perguntaria seu nome. Baixando os olhos, com voz sumida, ela sussurraria: Dora. Talvez ele tivesse lido Dickens e reconhecesse nela a personagem, frágil e delicada, isso já seria meio caminho andado. Mas o mais provável é que ele não conhecesse Dora nenhuma, Dickens nenhum, e isso também era bom. Pois a Dora tinha morrido, deixado David Copperfield viúvo e essa lembrança provavelmente lhe atiçaria a dor. Era até melhor se apresentar como Alice. Alice no país das maravilhas, como seria o país em que Doralice finalmente viveria, após o viúvo se apaixonar perdidamente por ela, e propor-lhe casamento. Que seria ali, na mesma Igreja onde haviam se conhecido, na missa de sétimo dia. Generosa, Doralice insistiria que rezassem pela alma da falecida, num momento tocante dentro da cerimônia. A Igreja, toda iluminada e cheia de flores, mais pareceria um jardim, ou um palácio encantado. Seu vestido seria branco, resplandecente. Nada de marfins, de cremes, de cores envelhecidas. Ela usaria branco, e muitas rendas.  Seu vestido teria uma sobressaia com uma cauda, já que ela não usaria véu, apenas uma bela mas simples grinalda. Nas mãos traria apenas duas flores presas a um único caule. Pois ela jamais esqueceria aquela a quem iria dever sua felicidade, a mulher que guardara aquele homem precioso até à morte, e que o entregara a ela, Doralice, que tinha sido tão tímida em sua juventude que jamais tivera um namorado, mas que aos 43 se sentia mais arrojada, capaz de qualquer conquista, e que finalmente, ao entrar na Igreja, podia acreditar que a felicidade existia e que era para todas.

Doralice sentiu uma lágrima descer por sua face comovida. O jornal, esquecido, deslizara para o chão. Retomando-o, ela voltou a ler os obituários.


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