de vidro transparente

com prescrições eu irei te preencher para facilitar a tua vida dolorosa

de Gerusa Leal

que para os mais informados era estudante e praticante de esoterismo. Para a maioria, manipulava forças com que não se deve mexer. Não passavam na frente da casa sem se benzer fazendo o sinal da cruz.

Não fosse o farmacêutico, cuja drogaria ocupava uma loja no térreo do único edifício de mais de um andar da pracinha, de propriedade do vereador, declarar ser aquilo rematada tolice a costureira já teria, sob qualquer pretexto, batido à porta da moça. Convocava as demais carolas para juntas irem apurar os fatos. Devidamente municiadas de água benta. É claro.

O boticário achava tratar-se de moça letrada em busca de tranqüilidade para trabalhar em sua área de interesse. Assim feito ele.

Considerava-se um cientista. Respeitado. Até o vereador vinha consultá-lo a propósito dos mais diversos assuntos. Fazia as vezes de médico. As pessoas nem sempre podiam ou queriam pegar a estrada para ir se consultar com o doutor, dono da farmácia sob sua responsabilidade técnica e gerência administrativa.

Quando cruzava o pontilhão, vindo de casa para o trabalho, vinha cumprimentando a todos com magnanimidade. À porta da drogaria, invariavelmente, já algum cliente a sua espera. Orgulhava-se de seu status de benfeitor da humanidade. Com suas prescrições, poções, pílulas e medicamentos os mais diversos, em parceria com o Criador facilitava a caminhada dolorosa dos que o assediavam em busca de alívio.

Andava sempre de sapatos brancos e calça comprida branca, sustentada por suspensórios pretos por cima de camisa branca também, de mangas curtas que vivia a arregaçar distraidamente quando concentrado no trabalho. À mostra, no bíceps esquerdo bem modelado, uma tatuagem feita em outros tempos, de outras crenças e filosofias de vida. Na pele branquíssima, contrastava a cabeleira e o bigode muito pretos, a custa de tinturas. Afinal, a química estava aí para tornar a vida mais bela.

Continuava a se exercitar diariamente, praticava e era apologista da alimentação balanceada, ia à missa todos os domingos. O único deslize que se permitia, ainda assim justificado pela necessidade de equilíbrio químico na dieta, era um copo de cerveja com os amigos, todo fim de tarde após fechar a drogaria e antes de voltar para casa, na lanchonete que ocupava a loja na outra esquina do térreo do edifício.

A conversa girava em torno dos mais diversos assuntos, desde supostas aventuras amorosas clandestinas de algum ausente até temas econômicos, filosóficos e, é claro, políticos. O boticário sempre manifestava o parecer, abalizado e respeitado, sobre todas as questões colocadas. E todos, mesmo quando não totalmente convencidos pelos argumentos, consideravam que havia lógica nos raciocínios e conclusões.

A opinião do farmacêutico mudava a atitude das pessoas sobre a forasteira, que nas poucas vezes que saía às ruas cumprimentava com sorrisos. Chamava a atenção, no entanto, o ar absorto a despeito da cordialidade e simpatia. As vozes ao redor baixavam se sentava no banco de sempre na pracinha. Para não perturbá-la.

Às vezes ficavam por perto conversando mais alto sobre qualquer assunto para que ela os ouvisse. Da desconfiança hostil, passavam a uma admiração orgulhosa pela escolha da comunidade para refúgio da ilustre desconhecida. Uma admiração quase unânime.

Quase, sim. A redatora, produtora e distribuidora da gazeta local, que ocupava a terceira loja, entre a farmácia e a lanchonete, e era protegida do vereador, não comungava daquele endeusamento provinciano à estrangeira. Implicava com a moça e achava que o povo daqui era ingênuo e simplório. Com o tempo se saberia melhor quem seria aquela criatura e porque se esconderia aqui. Sabe Deus do que estaria fugindo, alguma dívida, a esposa de um amante, quem sabe fosse até uma criminosa, mas


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