Primeiro Epílogo

de Leandro Resende

Um único banco do balcão estava ocupado. Era exatamente o último, o mais ao fundo, daquele alongado balcão. Ali um homem reescrevia a sua história. Chegou às 19 horas e naquele maciço banco decidiu morar até às quatro da manhã, aquela exata hora. Coca-cola, rum. Suco de laranja. Cerveja. Chope. Água. Outra cerveja, agora uma escura. Uísque. Rum. Agora desce só rum, gelo e Coca.

Cada líquido daqueles deslizou em sua língua, com um paladar especial. A infância. A escola. A namorada que o rejeitara. A virgindade. A esposa morta no início do casamento. A Beth, segunda mulher que fugira anos depois. Os filhos que ficaram. Os filhos. O desemprego. A jovem menina que lhe fizera surpresa com flores. A primeira doença e as seguintes. O enterro da mãe. A nova proposta de emprego. O primeiro neto que viria em poucos dias.

Neste mais do que meio tempo, foi três vezes ao banheiro. E na terceira vez, ele vomitou. Voltou como se nada tivesse perdido. Deixara lá passado, sangue, dor e desilusão. Não disse quase nada a Gelson – o atendente do bar – hora nenhuma. Só pedia a bebida. Contentava-se em reescrever sua história. Palavra, parágrafos, frases faladas ou pensadas. Acumulava-as em si.

“A vida uma hora dá um tempo e vai ao bar beber. Sozinha”, pensava. “E pode não voltar”, riu só com um pouco de sarcasmo. Percebeu que não ria senão que de si e cancelou o riso ao meio. Gelson levava copos, pensava e Lizandra, sua ex-namorada.

Os movimentos eram lentos. Gelson estava cansado, mas lavava os copos. O moço na sua frente não estava ali, senão quando pedia outra bebida. “A cada dia tenho saído mais tarde, com isso, acordo mais tarde e vivo menos”, raciocinava o garoto.

Mesmo se o garoto falasse, nada entraria naquele homem. Palavras? Só aceitava as que usava para relatar a sua história. “Tudo esteve sempre ao meu lado, próximo à minha mão, ao abraço. Mas não nasci para segurar, possuir. Quis tudo solto, sem prender ou ser preso…”, divagava, olhando para a lâmpada amarelada a frente do balcão, onde alguns insetos rodeavam, cercado por alguns fiapos de plumas ou coisa que a embriaguez levava a imaginar. “Nunca fui lâmpada, sempre inseto”, riu de novo, agora sem se censurar.

Uma música instrumental tocava levemente, sem cair ou levantar. Sem ser percebida sem acabar. Ora piano ora saxofone ou outro instrumento de sopro, que vestiam aquele ambiente de requinte. Desde o começo nomeou aquelas sinfonias de trilha sonora de sua desgraça pessoal.

Às quatro horas e quinze, olhou Gelson, franzino e de uma pele muito viva, e sentiu vontade de lhe dizer algumas palavras, as primeiras páginas do seu livro.

“Hoje, jovem, muita coisa de mim. A vida, a vivência. Sou um, você é…” Parou rapidamente. Não era bem isso que queria dizer e o jovem não entendeu a introdução. Ambos deixaram de se olhar. Mais dez minutos e como se nada tivesse dito, recomeçou, no capítulo um direto. “Fui jovem como você é e a vida foi o que é agora”, se perdeu, mas emendou de imediato: “Somos isso, garoto. Um bar, um bêbado que foi jovem e um jovem que será o bêbado solitário quando tudo lhe faltar.”

Sorriu sem nenhuma vitória, mas disse parte do que queria dizer desta vez.

Certo que de improviso, quis dizer ‘tudo lhe tirar’, talvez ficasse melhor ou não, mas o livro se adapta a cada leitor.

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