Barroca

de Valéria Santos

Era uma moça como outra qualquer. Estudava, namorava, fazia viagens nas férias. Vaidosa, muito vaidosa, apreciava as curvas que a natureza lhe dera, mas gostava de doces e frituras. E bebidas.

Começou a engordar, o namorado se engraçou por outra, ela ganhou mais peso, e os chocolates contribuíram para a lavra de espinhas e cravos.

As amigos não perdoaram sua nova aparência, não poderia haver desequilíbrio estético na turma e a moça foi excluída. Sua vida desandou, ela foi se enclausurando, espinhando, chorando.

No quarto, nada que pudesse fazer par à sua nova condição de feia. As revistas, os livros, a Bíblia de Eva, as esposas do rei Salomão, a Vênus na arte, a Cleópatra dos filmes, as beldades televisivas, o olhar das pessoas se voltavam ao belo, aos olhos azuis de um Cristo redentor.

E a moça abriu a janela, o céu rendia graça à beleza das flores, tudo em volta, no mundo das aparências, delineava-se como o rascunho mais próximo do paraíso, como se as rosas, margaridas, até elas, em sua branca vulgaridade, caminhassem em direção a algo maior que elas próprias, sendo já tão bonitas.

A moça pensou que deveria haver algo na terra que, misturado à agua e a outros elementos, daria vida à beleza das flores. Algo de chuva, barro e minhoca misturados ao cheiro da noite e aos raios da aurora, sim, eis a fórmula da beleza original, e Eva que o diga, sendo ela tão cercada de terra. A moça vibrou, da terra brotaria o reverso da feiúra. E quando a noite estendeu o manto escuro no jardim, ela abriu a porta, pulou para fora, nua e feia, cavou um buraco grande o bastante para os pés e ali fincou suas raízes. Abriu os braços como galhos, inventou falares com o abacateiro, pediu um fruto que aliviasse a fome de ser tão linda, fazendo de conta que a esperança da popa entrava na sua entranha tão desacostumada à seiva de simplesmente ser.

Tudo em volta falava com ela num silêncio interrompido pelo estrilar de um grilo, uma cigarra insone, o olhar preconceituoso da coruja velha e um vento úmido que logo trouxe a chuva. O encontro da água com a terra fez nascer o barro, que cercou a moça, e ela, com as mãos em concha, passou-o no corpo todo, e a chuva já ia arrastando todas as espinhas e celulites, e imperfeições. Ela estava linda, nua e deitada na grama, a chuva molhando suas partes todas, deslizando nos buracos do corpo, e ela rindo e chorando, esbarrando na alegria de uma forma milagrosa, espantando-se do tamanho da felicidade de estar assim tão nua, e molhada, e renascida, estendendo os braços para cima, como se num mergulho vertical em direção à beleza eterna.

Acordou. A chuva fazia barulho no telhado. Ela correu ao espelho, a pele lisa, o rosto perfeito, tudo fora um pesadelo afinal, ela era ainda a moça mais bonita da escola. E soltou uma gargalhada vitoriosa, que foi ganhando tons de arrogância, topando de repente com o sonho, a imagem de uma feiúra que viera não se sabe de onde, e que a moça tentava apagar com seu reflexo, existe alguém mais bela do que eu? E veio o medo, como se o estado de graça fosse uma imposição dos outros, Que cor é minha alma, o que sei da beleza da maçã, que tanto encanta quanto leva ao pecado. Era tão frágil seu ser, uma poça d´água desprovida da energia das grandes cachoeiras, um fio de lágrima dentro de uma ânfora dourada. Que medo veio de repente, enrugando sua testa, O que farei para manter a luz que me guiará quando minha pele, de fato, anoitecer, quando meu corpo todo der sinais de folha seca, quando por cima dos lábios as rugas se juntarem como saia pliçada?

Naquele dia as colegas estranharam o comportamento da moça. Uma delas se espantou, Você não está de maquiagem? E antes que as férias fechassem os livros, todas as garotas tinham se afastado dela, que não mais usava perfume, nem batom, nem ia ao shopping gastar sapato e a grana do pai. Guardava sempre um aspecto diáfano e não sorria, era pálida e lânguida.

Mas tudo não passou de um sonho. Ela acordou no meio da noite, correu para o espelho, estava gorda e perigosamente feia. Com o punho cerrado, deu um golpe no espelho, partindo-o em pedaços suficientes para qualquer reflexo. Passou o sangue no rosto, no corpo, a pele pegando tons de escarlate próprio da beleza feminina. Ela estava assim, tão mulher.

O enterro aconteceu às cinco da tarde, o namorado chorava copiosamente, as pessoas perplexas, a chuva unindo barro, lama e minhoca, em torno do caixão da moça mais bonita da escola, até que ela abriu os olhos e sorriu, sob os ombros opacos da madrugada.


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