Medeia

de André de Leones

Tudo bem que eu tenha tentado cortar o pau dele fora, mas eu avisei um milhão de vezes que não queria mais saber de suas gracinhas com as colegas de trabalho, mulheres bem resolvidas e elegantes e poliglotas e conhecedoras do mercado financeiro se insinuando dia após dia enquanto eu faço das tripas coração para manter a joça da casa em ordem e os meninos na escola e as coisas todas organizadas etiquetadas amontoadinhas, e agora toda essa história envolvendo a filha de um dos executivos, uma cabeça-de-vento, eu disse a ele que parasse, que não permitiria essa canalhice, essa piranhagem, e ele dizendo apenas Glauce não é piranha, isso e mais nada, sequer se dando ao trabalho de negar qualquer envolvimento, silenciando quando eu gritava, silenciando quando eu também me calava esperando que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. A desgraça é que ele tem o sono muito leve ou talvez eu faça barulho demais ou talvez ambas as coisas. Ele me deu na cara e disse que queria se separar. Antes, eu tinha falado com a minha irmã sobre essa história com a filha do chefe e minha irmã as putas são eles, meu marido é uma prostituta, seu marido é uma prostituta e tudo isso me dá um nojo desgraçado. Minha irmã é genial. Se ela fosse cortar o pau de alguém eu garanto que ela não ia ficar só na tentativa. O marido dela trabalha junto com o meu e a gente não ia se surpreender se descobrisse que os dois andam trocando ou, na menos pior das hipóteses, traçando a tal filha adolescente do chefe ao mesmo tempo, talvez ali mesmo no tapete do escritório de um deles, um fodendo a menina e o outro tirando fotos e depois eles trocariam de função e os três diriam rindo happy hour é happy hour. As salas deles são vizinhas e às vezes eu perco um tempo desgraçado imaginando os dois comentando sobre os traseiros das paquitas do RH e os peitos da nova secretária do diretor executivo e as coxas da terceira ou quarta esposa do cara do financeiro e, claro, sobre as formas durinhas da princesa Glauce. Às vezes eu sonho que sou ele e no sonho eu acordo de manhã e subo em cima da esposa que no caso sou eu (mas não no sonho) e dou a foda regulamentar porque o pau está duro por causa da vontade de mijar e depois de gozar nas coxas dela eu vou finalmente ao banheiro e quando me coloco diante da privada o pau despenca lá dentro e eu começo a gritar e acordo e fico aliviada por saber que eu continuo sendo eu e ele continua sendo ele, roncando de barriga para cima como se não houvesse amanhã ou ontem, a completa anulação do tempo e da existência. Ele disse que queria se separar e eu não falei nada, o meu nariz sangrava um bocado e ele se assustou um pouco. Eu disse chorando (sou uma imbecil) que era só brincadeira, que eu não ia cortar o pau dele, que se fosse cortar o pau dele não teria feito tanto barulho e ele não teria acordado ou só teria acordado quando o serviço estivesse feito. Ele disse são duas horas da madrugada e eu preciso trabalhar amanhã cedo e pegou o travesseiro e um edredom e se trancou na biblioteca. Na manhã seguinte depois que as crianças tinham saído para a escola eu repeti que tudo tinha sido uma brincadeira e que eu só queria assustá-lo mas que seria bom se ele fosse um pouco mais discreto. Mais discreto como ele perguntou e eu respondi você sabe que eu sei que você trepa com aquela outra, com aquela menina, eu sinto a porcaria do perfume dela nas suas roupas e as faturas dos cartões de crédito vêm para cá, eu sei onde você vai com ela e até o que vocês comem e que você deu um vestido para ela no último natal, eu sei de tudo e você sabe que eu sei e se você não me ajudar eu não vou conseguir levar adiante essa farsa. Ele ficou envergonhado e disse eu nunca vou te deixar para ficar com ela, por mais que seja isso que o pai dela espere que aconteça. Eu ri e disse é, isso faz com que eu me sinta bem melhor. Ele perguntou o que você quer de mim. Eu respondi discrição. Quer trepar com a outrazinha, trepa, trepa todo dia se quiser, mas não fica esfregando isso na minha cara, não. Ele ficou calado e não falou mais nada e depois saiu batendo a porta com tanta força que todo o prédio deve ter escutado o slam. O nosso poodle Crisómalo começou a latir e não parou mais, tão incomodado com essa história quanto eu. Sentada à mesa eu chorei pensando na primeira vez em que adentrei o condomínio, adorando o nome, Tessália, e viemos olhar o apartamento espaçoso sozinhos, o amigo dono da imobiliária nos confiando a chave e dizendo para que vocês não tenham de ficar marcando com o corretor e esperando até que ele apareça. Ele destrancou a porta e nós entramos e passeamos por todo o apartamento, eu amando a disposição e o tamanho dos cômodos, o arquiteto é um gênio, a gente não vai precisar mexer em nada. E então ele abriu a valise e tirou um lençol que estava dobrado ali dentro e estendeu o lençol no meio da sala, como se estivéssemos em pleno Ibirapuera fazendo um piquenique, e ele ordenou, ele não pediu, ele ordenou tira logo esse vestido, isso foi há dez anos, enquanto eu tirava o vestido pela cabeça e depois a roupa de baixo e me ajoelhava no lençol ele também tirava toda a roupa e ali nós concebemos o nosso primogênito, deitados no lençol estendido no piso da sala ainda vazia e um tanto escura, gelada. Às quartas ele pega as crianças na escola, almoça em casa com a família, nós quatro à mesa, eu pego o telefone e ligo para ele e digo hoje vou almoçar fora com as crianças e depois vou com elas ver um filme, deixo o seu almoço no microondas, e ele disse tudo bem, à noite conversamos. Eu desligo o telefone e digo para mim mesma já é noite, não percebeu?


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