Bem no Canto da Parede

de Maurício Melo Júnior

Gabriel catava no chão os raios minguados da esperança. Até o fim do dia alguém abriria as grades. Calava o choro para não aguçar o riso dos companheiros provisórios, de ocasião, peças de um destino malsinado, e deixava o mutismo mansamente vencer as horas longas. Uma dor tecida na vergonha o oprimia.

Para além dos muros escurecidos, a mulher e os três filhos. Nunca deixou faltar nada de essencial. Um pai com as contas pagas sempre no dia do vencimento, uma vida de correções, pelos cantos, à margem, digna, e agora a prisão.

Gastava horas lembrando os cadinhos de felicidade que teve um dia. Nunca foi de estudos. Encurralado, fugindo pelas quinas. Tinha tino e nenhum medo para o trabalho. O sonho da glória. Contínuo aos quatorze anos, dominava com orgulho a casa paterna sabendo-se invejado pelos irmãos, uns malandros. Todos desejavam sua gravata preta, fina.

Na juventude casou com Marizete. Vinte e um anos e um balaio de desejos sobre aquele corpo, o dela, belo aos dezoito. Vinte anos de sossego. Aventuras que merecessem registro, três filhos nascidos naturalmente, com os descuidos da vida, viagens de férias, fotos num álbum amarelado, antigo, televisão nova, um carro usado, a prestação da casa própria. Uma normalidade sem fim até que o oficial de justiça lhe bateu à porta com ordem de prisão. Não resistiu. Um homem enfrenta seus problemas.

Olhou para outras mulheres em momentos vagos.
No primeiro dia de serviço na portaria do Ministério notou os dengos de Marilene, a copeiras. Duas pernas e uma bunda. Deixou passar os pensamentos e os dias. Rotina infinda. Casa trabalho casa. Soube da gravidez da moça pelos colegas. Riu pelos cantos. Os fuxicos dos corredores. A menina tinha muito riso e pouco siso, sentenciaria o velho pai no tempo em que ele, Gabriel, usava gravatas pretas, finas. Agora tudo era morto. O pai, a infância, a cidade antiga.

Num dia de folga ouviu tocar a campainha. Recebeu o papel e, desprovido de forças para contestar, assinou onde o moço mandou. Toda uma vida assim, pelos cantos. O soldado atira na direção que ordena o capitão, uma sentença ouvida todas as manhãs durante o serviço militar obrigatório. Deu baixa por excesso de contingente. Foi viver a paisano, conhecer Marizete, casar, criar os filhos. Agora o papel lhe ardia nas mãos. Marilene, a puta, garantia ser ele o pai e requeria pensão.

Voltou a sentar na cadeira da varanda e matutou. Algum advogado do Ministério lhe apontaria um caminho. Não era o pai. Isso sabia. Tinha certeza.

No ônibus do dia seguinte lembrou da festa de final de ano, a confraternização. Chope a rodo. Um exagero. Cantou moda sertaneja, sim, mas voltou direto pra casa, cochilando no coletivo, prenhe de cuidados, desprovido de escândalo. Dormiu para estar novo no outro dia. No serviço, os comentários aprovavam sua conduta. Um pai de família. Um homem. Não, nada de novidade naquele dia.

Satisfez todas as medíocres ambições no duro da batalha cotidiana. Marizete ajudando com expediente regular em casa de família, os meninos freqüentando a creche pública, o colégio, catando um futuro melhor, correndo dos aperreios, do dinheiro sempre curto. Agora a trapalhada de tirar da boca dos filhos para dar àquela vadia, à puta. E ela a dizer pelos corredores comeu a carne tem que roer o osso.

Chegou a comer aquela carne? Sim, um homem não foge dos desafios. Coisa de um ano. Marizete viajando com os meninos e uma carona no final do expediente da sexta-feira. O Corcel usado se prestava a esse luxo. Parou no caminho. Um chope, uma pizza. Marilene, um xuxu. As afinidades cresceram madrugada a fora.

Na segunda-feira a vida tinha sua normalidade de volta.

Ousou camisinha, aquele incômodo, e depois ouvia pelo corredor a gasguita da puta pobre é uma merda, fode com uma porcaria que estoura e tá aqui a economia.

Engoliu todos os desaforos até sair o resultado do DNA pedido na justiça. Não era o pai do moleque. Abriu uma cerveja, bebeu somente ela e foi dormir feliz. Passou a andar com importância e razão. Deixou de sustentar a puta. Voltou o orçamento à normalidade. Apertado, pagando só o justo. Marilene, a quenga, resmungando pelos cantos.

Até que o oficial de justiça trouxe a intimação.

Um advogado arranjado pelos patrões de Marizete falou em erro jurídico. Os processos correram separados. Quem o condenou à prisão não sabia do DNA, mas com o tribunal em recesso, era preciso esperar. Que jeito? Haja pau no lombo do pobre. Mais um dia pelos cantos à espera de um papel.

Engoliu o choro. Havia uma barata antiga bem no canto da parede, mas Daniel olhou pelas grades a lua cheia que domava a noite.


%d blogueiros gostam disto: