Cadeados

de Dheyne de Souza

Encadeada de esperas, a moça toma um táxi quando deveria pegar um ônibus. Mas isso não tem importância. Não tem importância porque o aço oxidado, porque o tom dado da chuva, porque não há nada sequer bolsos.

O motorista espera como ela também espera aonde ir.

Ele prega no rosto dela uns olhos, um fim de dia, num retrato de fumaça, sol, cadeias estampado nas retinas.

Ela trancada no intervalo entre a janela e o mundo, todos de mãos cerradas.

Ele até abriu a boca, veio som, letra, imagem, freados ali na intolerância da língua.

Ela era uma moça de esperas, parada ali, cadeada no relógio do seu banco.

Não que ele soubesse, a boca somente uma guarda, se o céu prometesse mais chuva, noite, explosão.

Estavam fechados no trânsito, entre um retrovisor embaçado e um banco murcho.

Foi ela quem levantou

o olho

a marcha

o risco:

 – Faz o que quiser, por favor?

Foi extremamente uma súplica:

– Faz o que quiser, por favor?


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