Anatomia

Madre, yo al oro me humillo:
él es mi amante y mi amado,
pues de puro enamorado,
de continuo anda amarillo;
que pues, doblón o sencillo,
hace todo cuanto quiero,
poderoso Caballero es
Don Dinero

Quevedo

Erwin Maack

Em uma estação ferroviária na Índia, Pondcherry, um senhor coberto por quase trapos outrora brancos vendia, em uma barraca, panipuris e garapa havia treze anos. Panipuris, uma espécie de pastel crocante feito com pão ázimo recheado com batata, tamarindo, muito popular por ali. Trabalhava com alegria, como se estivesse brincando. Ao redor da barraca, na entrada do lugar, uma mulher trabalhava varrendo a estação com um maço de folhas secas amarradas na ponta com um cipó, sem a haste, o que a obrigava a ficar agachada para limpar cada partícula de pó estranho àquele espaço, afastando também, meticulosa, os restos e detritos do caminho dos passageiros. O vendedor me informou de que ela trabalhava para ter o direito de dormir num banco da estação, à noite, após completar a sua jornada. Chegaram juntos do interior. Não se conheciam. Eu esperava pelo meu trem. Sentei ao lado de um homem com trajes ocidentais aparentando um uso excessivo e seguidas lavagens, a pele da cor do couro, lisa e envernizada pelos anos de exposição ao sol, com óculos redondos de aros dourados, calvo, olhando estático o vazio. Ofereci um dos pastéis como forma de diálogo. Ele não aceitou, mas abriu um suave sorriso incentivando o papo. Falei sobre o contraste entre aquela calma e as bombas que explodiram em Mumbai. Ele apenas ouvia. Olhava alternadamente para mim e para a cena. Aproveitei para falar daquela pobre mulher que comia dos trocados dados pelos pedestres. Ele me perguntou o que eu fazia por ali. Respondi que buscava a minha paz (chanti). “Pois bem, ela é um exemplo para você. Ela encontrou a paz. Não carrega mais nada inútil consigo.” Chegou o meu trem. Ocupei o meu lugar. O vagão estava lotado. Acomodei a mochila de viagem entre os meus pés, pesada, cheia. Pensei um pouco naquelas palavras e resolvi dar o seu conteúdo, distribuindo calças para quem estava por ali. Fiz o mesmo com as camisas e todos outros utensílios. Aliviado, apesar de lutar contra o meu vizinho de assento, que girava a mão em círculos no lado da cabeça, indicando o meu estado de espírito. Eu sorri e disse: “Chanti. Chanti”.

“Ao sul da Índia, no hospital de Nallamada, um suicida ressuscita. Ao redor do seu leito, sorriem os que lhe devolveram a vida. O ressuscitado olha para eles e diz: ‘Estão esperando o quê? Que eu agradeça? Eu devia cem mil rúpias. Agora vou dever também quatro dias de hospital. Vocês, imbecis, me fizeram esse favor’.”

Gupta trabalhava para Jaya Chama Rajendra Wodeyar, vigésimo-quinto Marajá de Mysore. Era habitualmente chamado para conversar sobre filosofia e história. Apesar de não entender exatamente o que o Marajá falava, gostava de se quedar, ouvindo o som das palavras, as expressões que o rosto do patrão assumia. Todos os dias, o livro em que eram anotadas as observações e mementos se abria e os sons escapavam dando nomes, cores e fragrâncias ao mundo. Gupta percebeu rapidamente o valor incontestável do dinheiro. Prático como sempre, arregimentou uma pessoa para ficar na estação e, com uma roupa adequada, aproximar os turistas, e respondia a qualquer pergunta incentivando a doação do peso que carregava para encontrar o caminho da felicidade, sempre mirando o céu. Depois disso, outros – contratados –, ao verem o término da representação, entravam no trem destinado ao viajante e ficavam ali por perto. Recolhendo as doações. Os bens eram apreciados e muito bem pagos. Gupta vendia muito e ainda barato. Ampliou o seu esquema em várias estações que recebiam turistas, assim podia viver consumindo sua alma no trabalho de manter suas três mulheres. Tinham tudo de que precisavam. Davam-lhe filhos. Dava livre vazão ao seu desejo. Quando precisava de paz de espírito, sabedoria, idéias, ouvia as palavras de Jaya.


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