O Homem da Gravata Florida

da série: ‘Não Seria Trágico se não Fosse Música’

de Daniela Mendes

Teve baile ontem, Jorge percebeu que todo mundo está muito ligado nesse lance de rock’n’roll. Ronaldo, o Ronnie, trouxe um disco dos Beatles lá do estrangeiro e todo mundo mexeu o esqueleto. Erasmo apresentou para Jorge uns brotos papo firme (ele pega todas com seu calhambeque vermelho). Mas nosso herói tava mesmo afim é da Wanderléia, que arrombou a festa naquela minissaia. Não rolou nada com ela, nem com Teresa. Ela deu tábua e resistiu ao mulatinho que estava um tremendão na boca de sino presenteada por sua mãe.

Jorge agora, já tarde do dia seguinte, amarga uma ressaca daquelas. Vai para cozinha e quase cospe fora o café velho na garrafa térmica. Merda! Tá frio. Mas nada de amargura, senta na janela que dá para rua e apóia seu violão no sovaco. Fica lá, puxando os arames esticados com a ponta dos dedos. Pára de vez em quando e olha o movimento no morro… Dia de roda de samba, sêo Assis passa com uma caixinha de fósforos. Jorge acha graça, peleja com o instrumento, tentando tirar uma canção de Chuck Berry. Tim fica enchendo o saco dizendo que ele toca errado. Vai vendo, Jorge sabe que daquele jeito sempre acontece, sempre dá certo.

O problema é a ressaca. Talvez se ele der um tempo e tomar uma cervejinha, aquela dorzinha chata passa…

Pára e olha a rua ali.

Meio lerdo considera a cerveja. O dilema é sair de casa, algo assim como a briga da preguiça contra o desejo. E então neste momento toda a rua parece paralisar. Puta merda! Fazer o que? Caramba! Que merda…

Um moleque quebra o intervalo correndo atrás de uma roda velha de bicicleta. A rua toda volta a se movimentar, sabe comé? E Jorge percebe que lá vem o homem da gravata florida. Jorge então sente uma euforia louca: “Meu deus do céu… que gravata mais linda!”. Ele acha a gravata sensacional, olha os detalhes, a combinação inusitada de cores e crê que aquilo é a perfeição tropical: “O rosa e o azul turquesa se desfolham sob singelos cravos. E as margaridas, cara! Margaridas de amores com jasmim, explode ele em lirismo.

Definitivamente, Jorge se convence: isso não é só uma gravata! Essa gravata é o relatório de harmonia das coisas belas! É um jardim suspenso dependurado no pescoço de um homem simpático e feliz. E sabe porque? Com aquela gravata qualquer homem feio vira príncipe! Jorge não se agüenta e diz quando o homem se aproxima:

– Simpático, simpático, simpático! – Na sua mania já conhecida de repetir palavras.

Porque com aquela gravata, um homem é esperado e bem chegado; é adorado em qualquer lugar. Por onde o homem da gravata florida passa, nascem flores e amores.

Em pensar que é uma gravata florida, singela como essa, linda de viver!

– Até eu, até eu, até eu, até eu, até eu… Conclui Jorge cifrando tudo isso no seu violão.

Uma resposta to “O Homem da Gravata Florida”

  1. O Homem da Gravata Florida « Walkwoman’s Journal Says:

    […] O Homem da Gravata Florida da série: ‘Não Seria Trágico se não Fosse Música’ […]

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