de vidro transparente

Gerusa Leal

era querer demais

que assim feito as de todos, a opinião da redatora da gazeta não se baseava em nada de concreto. A não ser no despeito. Pois intimamente acreditava, como o farmacêutico, tratar-se a moça de pessoa preparada que, mesmo sem que se soubesse direito o que fazia, já lhe ofuscava a fama de mulher mais letrada da comunidade.

Não que Laura seja alguma sumidade nas letras, mas em terra de cego ela reinava absoluta. Toda correspondência oficial de Edilásio lhe é entregue para revisão, quando não é mesmo redigida por ela. E sobre a correspondência recebida pelo vereador sempre faz algum reparo na redação, embora antes elogie o texto como um todo.

A comunidade já se acostumara a respeitá-la enquanto autoridade em assuntos lingüísticos. Ninguém a contestava. Mas aquelas histórias de Tião sobre caixas e mais caixas de livros empilhadas esperando que as prateleiras ficassem prontas, não só no quarto dos fundos, mas tomando as paredes dos corredores, a perturbava.

Aguarda por tanto tempo agachada por trás da toceira de gerânios que um dos pés fica dormente. Pode vê-la se arrastando pelo canto do muro, deixando o rastro de baba que a luz do poste faz brilhar. Lembra de haver lido em algum lugar que uma pesquisa feita por dermatologistas e farmacêuticos comprovava a eficácia de secreção da lesma como cosmético. Faz uma careta. Pensa no que diria o boticário a respeito. Para que os produtos surtissem o efeito esperado a secreção devia ser extraída quando a lesma estivesse estressada, porque assim seria rica em proteínas e outras substâncias regeneradoras. Sorri. Uma lesma estressada. Era só o que faltava. Parte um galhinho e começa a cutucar. Será que era bom mesmo para as rugas? Tinha visto também, num documentário, que ao contrário do que se acreditava, a baba da lesma não servia para facilitar o deslocamento. Mas para ela se alimentar. Depois de um certo percurso, voltava pelo mesmo caminho e ia degustando o que ficava grudado no rastro gelatinoso. Dessa forma também achava o rumo de casa depois de um passeio gastronômico. Servia até de ponto de paquera, às vezes uma lesma entrava no rastro de outra em busca de um parceiro para acasalamento. Com sorte, o encontro terminava o casal preso a um galho por densos fios de baba durante um demorado ato sexual. O que acharia Edilásio dessa possibilidade? E ela que sempre pensou que o lugar mais instável para se transar fosse a rede da varanda. Sorri. Cutuca mais uma vez. Uma coisa puxa a outra, lembra ainda de haver lido que as mulheres da Idade Média, para ostentar uma testa grande, usavam um preparado feito de cinza de ouriço, sangue de morcego, asa de abelha e baba de lesma para depilar, polir e branquear a testa. Será que o animal escapara do criatório da moça? Está certo, lesma não é gado, mas sabe-se lá o que ela cria lá dentro.

Ouve barulho de chave em fechadura, em seguida passos no caminho até o portão e vê passar o vulto da moça que saía para a caminhada noturna. Espera até vê-la dobrar a esquina. Foi fácil entrar no jardim. Caminha até a porta, e testa a maçaneta, que gira com facilidade. Devagar, com cuidado, vai abrindo até que descobre a razão porque a dona da casa não sentia necessidade de trancar a porta. Tenta o ferrolho, que também cede, mas a grade só se move um pouco e para, com barulho de ferro contra ferro. Corrente de grossos elos, presa por enorme cadeado, daqueles que se fecha com chave tetra, garantia a segurança da morada.

Inclina-se, olha para dentro, mas a moça só deixara acesa a lâmpada do abajur de formato estranho, ao fundo da sala, e mesmo apurando a vista só dava para vislumbrar o contorno dos móveis e objetos. Aos poucos, distingue a poltrona com a mesinha ao lado e o livro em cima, como Tião descrevera. Daria tudo para adivinhar de que se tratava.

Pulou com a voz sussurrada e a respiração lhe bafejando a nuca. A cabeçada que Edilásio levou no nariz produziu um ai nada discreto. Ela põe a mão na boca do contundido e o arrasta para fora do jardim. Já na rua, as mãos na cintura e batendo o pé forte no chão, afinal, o que diabos você está fazendo aqui? Cheguei de viagem e queria lhe ver. E como conseguiu me encontrar? Segui o seu rastro; e você, o que estava aprontando? Laura toma o vereador pela mão e vai lhe perguntando como foi de viagem, o que trouxe para ela, e se achegando, e


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