Anotações para uma tarde fria, ao longo do canal, entre jardim e mar.

de Susana Fuentes

O mar escuro. O canal atravessa as águas, entre lagoa e mar. Sobre o canal, a ponte atravessa os carros. De um lado ao outro liga as margens, impede que se afastem. As ondas apressam a passagem das águas, apenas os homens esperam. De capote amarelo, olham para baixo, para as águas, lançam a rede e se esquecem de que a ponte é passagem, não é espera. Olham. Tão raro, ali capturo seu instante de humanidade. Em suas mãos está a rede, em repouso ambas, mão e rede. Não há comentários, nem da gente, nem dos gestos. A atenção é silenciosa, os olhares dos homens vão longe, no caminho dos peixes. São gritos de júbilo, variados mistérios, sem garganta, pequenos sustos. A chuva desce mansa, o frio, sim, é intenso. A corrente atravessa a ponte num deságüe sem trégua. A ponte: aquela mesma a cruzar o canal sob o sol escaldante do outro dia. Para atravessar a ponte, no calor do verão, até a fina sombra do poste é um alento. Ajuda a chegar do outro lado. Hoje, podemos ficar, porque chove, chove, e ninguém tem pressa.


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