O Herói e Napoleão

Luiz Ramos da Silva Filho

Ele passou a vida inteira vinculado a uma pessoa ou a uma obrigação real ou imaginária. Desde muito pequeno, acostumou a se colocar como personagem dos conselhos do pároco, da avó, da mãe, do padrinho de batismo. Ou até mesmo a ocupar o lugar daquele personagem das novelas de aventuras do rádio ou das revistas em quadrinhos da época, os seus tão queridos gibis do Hopalong Cassidy, Tarzan, Zorro, Jerônimo, Anjo, Homem Atômico e outros mais.

Caso necessário, ele seria capaz de vencer todos os seus inimigos para salvar a mocinha ou seus amigos, como no rádio, nas novelas da Rádio Nacional. Nos gibis, a mocinha era a Narda, namorada do Mandrake; aquela outra, a namorada do Fantasma, ou a Aninha, do Jerônimo, o Herói do Sertão. Esse era o seu ônus vitalício, a sua prisão dourada.

Preocupava-se também com o espiritual baseado em seus conhecimentos sobre santidade, assimilados das aulas de catecismo ministradas pelas Irmãs de Caridade ou dos sermões do padre. Em conseqüência, ele seria capaz de passar dias sem beber ou comer para alcançar uma graça desejada para si ou para seus familiares e amigos.

O aspecto material também o preocupava, pois via sempre as atividades beneméritas de seus pais. Seu pai fazia o possível para ajudar e agradar seus amigos, visinhos, parentes e corregilionários políticos. Sua mãe agradava a todos por comodismo e, a seu marido, para não perder suas posições sociais. Ela sabia o que queria e como atingir seus objetivos, o que seu marido não sabia fazer muito bem. Assim, em casa, heróis não eram muito convincentes.
Sua personalidade sonhadora levou-o a buscar profissões extravagantes, como qualquer herói que se prezasse. Assim, ele foi vendedor de cachaça em um botequim, vendedor de adubos e material para construção em uma loja. Ele foi membro de uma sociedade de ajuda humanitária de sua cidade e formou-se em medicina. Assim poderia ajudar a todos e dominar os conhecimentos necessários para dar-se bem em seus relacionamentos sociais.

Antes de se casar, foi policial especializado e candidato a vereador em seu município. Policial, foi durante alguns anos, mas vereador ficou só na candidatura, pois só recebeu os votos de seu pequeno grupo familiar. Casou-se, teve filhos, prosperou como médico em sua cidade natal e, como médico, conseguiu transformar-se em um herói de sua comunidade. Ajudava a todos sem medir esforços, enquanto era criticado por sua mulher, que se sentia prejudicada por suas atividades e idealismo.

Ele passou a vida inteira vinculado a uma pessoa ou a uma obrigação real ou imaginária e, agora, aos 49 anos, sentia-se cansado e desiludido, pois não via sentido em tudo o que fizera em sua vida. Ele ficara tantos anos a se sacrificar pelos outros e a se esquecer de sua própria vida e de seus sonhos, que já não sabia ao certo como resgatar todos os seus mais puros ideais Já nem se lembrava como eram as mágicas do Mandrake, os truques do Zorro ou do Jerônimo.

Por isso, ele resolveu mudar os rumos de sua vida e tentar voltar aos seus tempos de sonhador e seguiu solitário para uma grande viagem por cidades em países próximos e, alguns, até distantes.

– Do alto dessas Pirâmides, quarenta séculos nos contemplam. – teria dito Napoleão a seus soldados.

Ele estava lá, no alto da Torre Eiffel, como se estivesse sobre uma das pirâmides do Egito, e se lançou ao espaço como se fosse o Capitão Marvel em uma de suas aventuras.

Uma resposta to “O Herói e Napoleão”

  1. O Herói e Napoleão em Histórias Possíveis « Fruição e Escrita II – Enjoyment and Writing Says:

    […] Vejam esse meu texto publicado em Histórias Possiveis. […]

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