O senador está esperando

de André de Leones

1. Ele estava sozinho, pressionando a testa com a mão esquerda e suando muito. O ar condicionado estava ligado. Afrouxara a gravata, três copos com água bem gelada, todas as luzes acesas, mas ele ainda suava muito no momento em que atendeu ao telefone. Uma voz metálica comunicando algo. Ele disse: Mande entrar. O jornalista adentrou o gabinete, apertou a mão do senador, sentaram-se um de frente para o outro, a mesa entre eles, e a primeira pergunta foi: O senhor está passando bem? Sim, o senador balbuciou. Por que não estaria? O senhor está suando muito. Eu estou bem, disse, ajeitando-se na cadeira. O jornalista anotou alguma coisa em seu bloco e, enquanto o fazia, comentou: Foi um belo discurso. Algo ligeiramente parecido com um sorriso aflorou no rosto do senador. Eu sei. Obrigado. Trabalhei nele durante toda a semana. A semana inteira? Sim. Desde quando eu decidi. Eu mesmo o escrevi. O senhor é famoso por isso. Pelo quê? Por escrever os próprios discursos. Já escrevi, escrevo romances. Discursos não são nada. E o que o senhor pretende fazer agora? Tirar férias. O jornalista sorriu e disse: Voltar a escrever romances? O sorriso do senador desapareceu. Ele ainda suava muito.

2. Treze minutos depois, o repórter agradeceu pela exclusiva, apertou a mão do senador e deixou o gabinete. O senador permaneceu sentado à mesa, tentando se lembrar do que dissera ao jornalista. As palavras saíram sabe-se lá de onde e passaram por sua garganta e pela sua boca e respingaram fora, por sobre a mesa, até os ouvidos do jornalista. Ele não se ouvira falando, surdo de si para si, surdo em si mesmo. Passou a mão direita pela testa ensopada de suor. Alguém bateu à porta e adentrou o gabinete. Ele ouviu as batidas e a porta sendo aberta e fechada e os passos atravessando o gabinete. O senhor está precisando de alguma coisa?, perguntou um assessor parado à sua frente. Não te vi entrar. O senhor me desculpe. Eu bati. Eu sei que você bateu. Mas eu não vi você entrando. O senhor me desculpe. Não precisa se desculpar. Não estou reclamando, repreendendo, nada. O senhor precisa de alguma coisa? O senador abriu os olhos e encarou o assessor. Muito jovem, terno impecável, cabelos penteados para trás, barba feita. Seis anos e meio juntos. Leal, discreto, inteligente. Eu preciso de alguma coisa? Uma toalha de rosto. Úmida. Vou providenciar, senhor. No momento em que o assessor saiu, o telefone. Sua esposa, anunciou a voz metálica da secretária. Pode transferir. Como você está? Não pergunte. Já perguntei. Não pergunte. Vou pegar o próximo vôo. Para onde? Para junto de você. Estou indo amanhã cedo. Você não precisa vir até aqui. Amanhã cedo? Amanhã cedo. A imprensa está reunida aqui embaixo. Estão perguntando sobre você. Mas é claro que a imprensa está reunida aí embaixo. É claro que estão perguntando sobre mim. Você deu alguma entrevista? Uma. Por quê? Eu devia um favor. Não podia dizer não. O que ele perguntou? Não me lembro. Como não se lembra? Não me lembro. Vou desligar. Me liga mais tarde? À noite. Já anoiteceu. Mais tarde. Eu ligo. Vou esperar. Certo. Fica bem. Certo. Vai passar. Certo. Tudo isso vai passar. Certo. O assessor trouxe a toalha e o senador a dobrou ao meio e a colocou sobre o rosto. Quer me dizer alguma coisa?, perguntou, a voz abafada pela toalha. O ministro ligou. Disse que o senhor não se preocupasse. Que está tudo acertado. O senhor cumpriu com o combinado. Agora, acabou. O pior já passou. O que mais ele disse? Que os valores já estão à sua disposição. E lhe desejou sorte nas próximas eleições. Ele disse isso? Me desejou boa sorte nas próximas eleições? Sim. Disse que é uma questão de tempo até o senhor voltar. Que esta casa não vive sem o senhor. Sob a toalha, o senador sorriu. Vou embora. Avise o motorista. Pode ligar daqui. O assessor pegou o telefone e teclou alguns números. Chame o motorista. O senador está esperando.

3. Respirou aliviado ao adentrar o Piantella: o restaurante praticamente vazio. Ainda era cedo. Sentou-se a uma mesa no segundo andar, próxima ao “cantinho do doutor Ulysses”. Pediu escargot bourguigne como entrada e carré de cordeiro dourado ao forno como prato principal. E para beber, senhor? Romanée-Conti Petrus 1982. A garrafa. Não costumava pedir sobremesa. Enquanto esperava, angustiou-se pensando nos restaurantes de sua cidade. Alguns meses no exterior, sim. Ela ia gostar disso. Afastar-se de tudo. Até a próxima bola da vez, quando se esqueceriam dele. Um por vez. Em fila. Isso. A minha vez, depois a vez dele, depois a vez dele, e assim por diante. A enorme roda girando. A imprensa. Sorte e azar. A maldita imprensa. O celular começou a tocar. Suspirou. Sim? Foi um belo discurso, senador. Me disseram isso mais cedo. Tenho um recado para o senhor. De quem? O senhor sabe de quem. Pode falar. Ele está com o senhor agora e estará com o senhor daqui a um ano e meio. Nas eleições. Eu ainda não sei se vou me candidatar. Sabe, sim. Eu sei, o senhor sabe, ele sabe. Certo. Então, boas férias. Obrigado. O garçom trouxe o vinho. Ele bebeu duas, três taças. Está comigo agora e estará comigo daqui a um ano e meio. Nas eleições. Depois das férias. Encheu novamente a taça. Quinze minutos depois, ainda não tinham trazido a entrada. Chamou o maitre. Estou esperando. O maitre pediu desculpas, foi até a cozinha e disse: O senador está esperando.


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