Papangu e bumba-meu-boi

Luciano Mayer

Hoje, fui acordado bem cedo. Mas a sutileza, a delicadeza com que isso ocorreu só mesmo sendo obra da mãe natureza: um sopro suave de brisa se adentrou pela janela do quarto e me fez cócegas num dos pés não coberto pelo lençol. Fui saindo bem devagar da letargia em que me encontrava, distendendo um braço, depois o outro, numa preguiça extrema. Talvez por isso, ao contrário do comum, do natural, não me desvencilhei de pronto dos sonhos que me haviam feito companhia naquela noite.

Despertar desse jeito é salutar, pois quando acontece de outra forma, abrupto, dizem, um fio de ouro que liga o corpo à alma, então vagueando no espaço sideral, terreno dos sonhos, pode se romper, correndo-se o risco de se morrer de susto. Meu pai, adepto dessa filosofia, sempre me acordava cantarolando músicas da sua época de juventude.

Ainda torpe, ressacado pelo sono profundo desfrutado há pouco, sentei-me na beirada da cama, equilibrando a cabeça sobre o pescoço e desentortando a coluna. Mantinha os olhos fechados, preservando o escuro próprio dos cinemas, querendo dar continuidade aos filminhos passados diante deles. E foram vários, um festival de curtas-metragens. Entretanto, a minha memória randômica tem capacidade restrita, só permitindo relembrar de alguns, no momento.

Eu me via no Recife Antigo, em plena folia, usufruindo o frevo, a vida, a liberdade, e com ela, a explosão da libido, após uma década de solidão a dois. Latinha de cerveja bem segura na mão direita; na outra, um estuário de todos os desejos reprimidos, bem comportados, domados ao longo dos anos, ora canalizados a plena vazão até as pontas dos dedos. Não seria exagero comparar todo o meu membro superior esquerdo a um cabo de tomada de ferro elétrico, isso porque se os dedos, eu diria, pinos, encontrassem um plug apropriado, também provocariam aquecimentos vigorosos, e sem resistência alguma. E lá estava eu no meio da multidão, sempre olhando para o lado contrário ao rastreado pela mão boba, pra disfarçar.

Depois de ágeis incursões geográficas, percorrendo as mais variadas formas de relevo, desde montanhas de curvas suaves, consistentes, até pães-de-açucar desmoronados com o passar dos tempos, eis que a mão esperta é brecada pelo pulso: uma pressão firme de um polegar em contato com um indicador, lembrando um alicate, metidos em uma luva macia, a deixou imobilizada. Enquanto fingia não perceber essa situação, entornando em câmera lenta os últimos goles de cerveja, tratei de metamorfosear os gestos, a mímica, a expressão do rosto, de modo a ter um aspecto de bêbado, quiçá preparando o campo para uma saída honrosa ou horrorosa, mais adiante. Aos poucos, fui erguendo o braço algemado, bem para o alto, na falsa impressão de acenar para alguém, acreditando que isso livraria a mão da amarra. Todavia, esse movimento teve o mesmo efeito de uma vara de pescar que, levantada, traz na ponta da linha o peixe fisgado: fiquei frente a frente com uma figura embutida numa fantasia de papangu, típica do carnaval de Bezerros, cidade do interior de Pernambuco, com a clássica máscara sorridente, pequenos orifícios nos olhos, além das castanholas barulhentas manuseadas freneticamente em círculos, no ar.

Sem arredar pé da estratégia traçada, aproximei-me daquela assombração, voz enrolada e boca mole, e perguntei se era home ou mulé. A resposta não se fez ouvir, mas sentir: ainda presa pelo pulso, minha mão foi levada de encontro ao tórax da colombina, num movimento semelhante ao de um braço de radiola sendo colocado sobre um disco de vinil, onde, de maneira leve e lépida, inspecionei a área e conclui que as protuberâncias ali existentes eram peitos siliconados, parecendo coisa de traveco recauchutado. Esse comentário, provocativo, causou reação: a “operação radiola” foi novamente acionada com meus cinco dedos sendo agora dirigidos para a região sul do corpo misterioso. Lá chegando, escorreguei-os em direção a patagônia argentina, em busca da Tierra del Fuego, surpreso ao perceber, sem maiores delongas, que já singrava o canal de Beagle, ladeado por ribanceiras fornidas, revestidas de uma tênue relva, aparada como se fora um gramado de campo de futebol.

Numa atitude impulsiva, soltei a latinha de cerveja, agarrei a borda da fantasia de alma penada com as duas mãos e, num golpe só, levantei-a e me enfiei embaixo dela; aproveitando um tropeço providencial, enrosquei-me sem cerimônias na cintura da beldade para não cair. Vista sob o ângulo em que eu estava, a fitá-la de corpo inteiro, desnuda, era mais do que uma beldade, uma verdadeira escultura de Miquelângelo.

E saímos, assim, pelo meio do povão, como um bumba-meu-boi, de quatro pernas, mas sem rabo. E quem disse que não tinha rabo?


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