Retrato na estante

Ana Cristina Melo

Ele me observa sobre a estante sem ter coragem de me tocar. Sempre estive à frente de Virginia Woolf, entre Kafka, Flaubert e Drummond. Nunca entendi essa sua forma de arrumar os clássicos. Foi a única coisa de que me arrependo. Não ter lhe questionado qual era seu critério.

Hoje sou apenas esse retrato na estante. Não restou nenhuma roupa, nenhum vestígio. Mas ele ainda necessita de minha presença. Da necessidade de me encurralar entre suas histórias.

Tudo começou há cinquenta anos. Até eu me surpreendo com esse meio século que se passou. Tinha dezoito anos, dez a menos que ele.

Eu era apenas uma menina com sonhos, presa a uma pacata cidade de interior. Ele chegou na rodoviária sem bagagem, mas trazia seu projeto muito bem engendrado.

Eu não devia estar naquela praça. Normalmente não estaria ali, mas naquele dia havia decidido sair de casa. Tinha uma ansiedade soprada pelo destino. Havia uma celeridade em meus atos e, há algum tempo, o ar sem pressa daquele lugar me sufocava.

Acho que fui a primeira a vê-lo descer do ônibus. E acho que fui a única que ele enxergou. Dirigiu-se a mim e seus cabelos loiros brilhavam tanto ao sol, que tudo parecia uma cena dos filmes que eu assistia na praça, na única sessão mensal.

Perguntou-me sobre um lugar que pudesse pernoitar. Hipnotizada com seus olhos verdes, levei-o até a pousada de meus pais.

Em sua ficha, amalgamados apenas o nome Arnaldo, um sobrenome estrangeiro e a palavra escritor. Três palavras que me encantaram. Nunca ouvira falar a seu respeito. Naquele fim de mundo não se falava de literatura. Por curiosidade li Monteiro Lobato e Machado de Assis. O diploma do colegial servia para enfeitar a parede da sala de minha mãe. Tive curiosidade em conhecê-lo de perto. Tocá-lo, meio que para descobrir se escritor era gente como nós.

Fui ao seu encontro no quarto onde se recolheu, logo após pagar uma semana de hospedagem. Bati duas vezes e ele abriu com um sorriso largo, um pouco torto no dente canino. Antes que eu inventasse uma desculpa para justificar meu impulso, ele me perguntou se eu o acompanharia pela cidade.

Concordei. Mostrei-lhe o pequeno comércio, no qual ele comprou algumas peças de roupa. Não havia muito o que mostrar – a praça com seu coreto, a feira de artesanatos e as cachoeiras.

Ali na queda d’água menos visitada, atrás da pedra que eu usava para me esconder nas brincadeiras de criança, fui surpreendida com um beijo. Não fora meu primeiro, mas certamente fora o mais intenso. Era loucura, eu sabia, mas havia me apaixonado por aqueles olhos verdes. Suas palavras me causavam torpor e seus beijos me roubavam daquela realidade da qual há algum tempo eu me imaginava fugindo.

Namoramos atrás daquela pedra, por toda aquela semana, sem que avançássemos mais do que os seus toques ousados em meu corpo. No último dia, propôs-me que fugisse com ele. Não o conhecia, não sabia de onde ele vinha, nem para onde ia. Apenas desejava – como se tivesse querido isto no ventre de minha mãe – não morrer naquele lugar.

Combinamos tudo e, assim como ele fez, parti dali com a roupa do corpo. Apenas uma bolsa com algumas lembranças. Entrei no ônibus que seguia para a cidade vizinha. Ao descer, ele me esperava. Dali seguimos para muito longe.

Ele me comprou roupas e até um nome. Minha identidade continuou a me exibir como Angelina, mas Arnaldo não gostava de meu nome e disse que eu passaria a me chamar Virgínia.
Foi a primeira concessão que fiz. Meu pequeno grande erro. Viajamos de cidade em cidade, sem que ele me tornasse sua mulher. Disse que só o faria quando nos casássemos.

Eu enlouquecia pensando no momento em que me entregaria a ele. Era meu único desejo e objetivo. Não o percebi me moldando. Cortando meus cabelos longos e pretos e deixando-os curtos e castanhos. Decidindo minhas roupas e escolhendo o que eu deveria comer. Determinando a hora em que eu deveria acordar e me recolher. Adaptando meu paladar para comidas e bebidas. Plasmando minhas frases e pensamentos.

Um mês depois de fugir com ele, nos casamos num lugar cujo celebrante falava uma língua de que entendi poucas palavras.

Ele me levou naquela noite para um hotel luxuosíssimo, e subiu comigo em seus braços para a suíte. O quarto tinha uma grande cama de dossel coberta por um cortinado de voile. Toda a madeira era trabalhada com pequenos labirintos. A mesma madeira, escura, sobressaindo no cortinado branco. Uma cama assim não me parecia real, igual a mim, que me sentia irreal diante de tudo que acontecera naqueles últimos dias: a fuga, as aulas, a cerimônia de casamento.

Em pé ao lado da cama, ele me despiu completamente, deitando-me em seguida. Meu corpo estremeceu com o contato da pele quente com os lençóis frios de cetim. Ele se sentou e em vez de me tocar, se inclinou para a lateral da cama, e, de dentro de um jarro, retirou pétalas que pareciam congeladas, esfregando-as sobre mim. Meu corpo estremeceu mais uma vez.

Eu o desejava, com a mesma intensidade do medo que eu tinha do que iria acontecer. Ele se despiu e era a primeira vez que eu conhecia a nudez de um homem. Não houve carícias nem palavras. Ele se pôs sobre mim, e mal senti seu falo rijo me tocar, e o tive alcançando o meu íntimo, num só movimento. Nunca esqueci aquela dor, e acho que era esse o seu objetivo.

Em vez de gozo, escorri-me em lágrimas.
Na manhã seguinte, acordei com Arnaldo alucinadamente teclando uma velha máquina de escrever. Fiquei na cama sem ter coragem de me aproximar. Na realidade, me perguntava o que fazia ali. Talvez tenham se passado umas duas horas até que ele impelisse silêncio à máquina. Levantou-se e me viu. E se aproximou ignorando o quanto eu tremia e pedia para que ele não o fizesse. Deu-me todas as carícias e sensações que eu imaginara sentir da primeira vez. E, quando copulamos, foi como se nada de mais fantástico pudesse existir.

E assim aconteceu nas vezes seguintes. Por um, dois, muitos anos. Eu ia aonde ele queria, comia a comida que ele escolhia, velava seu trabalho na máquina, enquanto passeava os dedos pelas dezenas de livros de sua biblioteca. Como prêmio, na cama ele me impelia a sensações indescritíveis. E eu sempre sabia quando seria levada para o quarto. Era quando ele pegava um retrato meu que ficava na estante, e passeava os dedos pelo meu corpo inerte.

Desde a primeira semana de casamento, decidiu que eu precisava conhecer as Letras. E toda noite após termos relações, ele lia um trecho de algum livro para mim. Eu me excitava em reconhecer a capa antes perdida entre tantas outras, e me sentia escolhida, como aquele livro. Eu buscava entender e interpretar com prazer cada história. E ele se alimentava disso. Assim conheci os grandes, os clássicos, os inesquecíveis. De contos a romances. De poemas a peças teatrais. Os livros em quase sua totalidade estavam na língua pátria dos escritores. Ele me dava sua interpretação, portanto nunca soube se eram apenas idiossincrasias do que sua verve crítica considerava como perfeito.

Um dia, após sete anos, eu desejei filhos e lhe disse isso. Ele me olhou feroz. Seus olhos pareciam brasas. Puxou-me pelos cabelos para o andar de cima. Despiu-me como na primeira noite, e se embrenhou para dentro de mim sem prenúncios. Suas únicas palavras foram: “Nunca mais deseje nada”. Dormi entre lágrimas e a lembrança da dor, que, então, descobria ser minha punição.

Na manhã seguinte, ele teclava violentamente sua máquina de escrever. E mais uma vez, tomou-me como o mais voraz dos amantes. E mais uma vez eu esqueci.

Mas depois daquela noite, algo de diferente aconteceu em nós dois. Ele se sentiu poderoso para escrever e me dizia que nada em minha vida, antes de o ter conhecido, era digno de ser escrito. Intitulava-se meu sopro de vida, meu criador. Eu comecei a desejar um ar diferente, que não era respirado dentro daquelas paredes.

Não tardou para ele perceber e eu pressenti o que iria ocorrer, pela crueldade do seu olhar. Sussurrei que não o fizesse, mas ele ignorou. Na manhã seguinte, a máquina em frenesi. Mas não havia mais conivência. Ele, então, saiu e trancou a porta.

A partir daquele dia, ele me manteve enclausurada naquele quarto. Vinha toda noite, e eu nunca sabia quando ele me tocaria amavelmente ou.

Eu enxergava todas as estações pela janela do quarto, e me acostumei a isso, sem perceber que houvera uma liberdade, num tempo em que ele não existia.

As histórias continuavam toda a noite, após ele me possuir, sem que eu fosse capaz de voltar a sentir prazer naquelas palavras.

Houve um tempo em que ele não se satisfez com a minha resignação. Ele necessitava de revolta, de instabilidade para produzir poder para sua escrita. Ele não era capaz de criar personagens verossímeis, precisava tê-los em carne e osso e manipulá-los, para escrever sobre eles. E ele buscava essa revolta em mim, com sutilezas que destruíam minha alma.

Não havia grades na janela. Seria completamente possível eu fugir dali. Talvez me machucasse um pouco, mas sobreviveria. Por que não o fiz? Temia o desconhecido. Não lembrava que não havia tido esse temor quando fugira com ele.

Assim, me deixei ficar naquele quarto, por vinte estações. Um dia, antes de sair, ele permitiu ficar para trás um livro. Era sobre Sherazade. Passei a ler escondida enquanto ficava só. Ao finalizar a história, senti o quanto aquele quarto era sufocante. Cheguei perto da janela, mas não tive coragem de transpô-la.

Então, planejei tudo. Da mesma forma que ele o fizera. Levei-o ao máximo da fúria, dizendo-lhe tudo que eu desejava, que eu sentia. Revelei-me de carne e osso, uma personagem fugidia de seu romance. Ele enlouqueceu. Quebrou tudo em volta. Lacrou as janelas, por onde nunca tive coragem de fugir. Cortou a luz e a comida, e me abandonou ali por dias.

Quando voltou, me encontrou deitada, inanimada, enfim uma personagem eternizada.

A partir desse dia o vigio do retrato na estante. Ele me olha ainda com veneração, mas nunca mais ousou me tocar. O som da máquina de escrever nunca mais foi ouvido nessa casa.

A minha vingança é que ele nunca saberá se eu realmente existi ou se fui apenas fruto de sua imaginação.


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