DADÁ

Daniela dos Santos

Pegou na cabeça com as duas mãos e a abaixou um pouco. Virou os olhos pra baixo e lembrou como se fosse agora, uma vergonha com pedacinhos de raiva no fundo. Isso é a maior bobeira. Talvez nem fosse a maior bobeira. Talvez fosse só brega. É, não lembrou tão bem assim, não como se tivesse sido hoje. Só lembrou mesmo a raiva empoçada no fundo, meio dolorida, apertando na boca do estômago. Não é nada, disse num riso. Mas se quer saber, lembrou sim, como se fosse hoje, que mesmo hoje, se hoje ainda fosse o dia, não lembraria o que era, se a maior bobeira, ou muito brega, ou o quê; mesmo hoje ainda só teria aquele ódio subindo pela vergonha, com vontade de arrancar aquela cabeça que dizia tamanha crueldade. Certo, nem tanto. Talvez tenha sido muito palha. Muito palha é muito provável. Tipicamente goiano. Muito possível.  Isso é muito palha – não é nada, no meio de um riso murcho. E dentro do riso murcho, aquela raiva, aquela vontade de xingar, de chamar de covarde, de exibido, de chato, mesmo. Muito palha é você! Pior que era isso mesmo: muito palha é você. Não lembrou muito bem, mas achou que era isso mesmo. Pronunciou várias vezes dentro da cabeça segura pelas duas mãos palha é você. Fez muito sentido. Ouviu sua própria voz murcha e molhada de cerveja dizendo com um arroto de raiva.  Soltou a cabeça e a levantou um pouco, muito palha. Uma vergonha vermelhinha subiu acima da boca. Fechou os olhos e os revirou dentro das pálpebras. Dizem que seu avô também fazia isso. Seu avô devia ser falso e envergonhado, como ela, palha. Antes de pensar no avô, olhos azuis que só imaginava, disse ainda mais uma vez, com um arroto de vergonha.

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