O silêncio do bosque

de Leandro Resende

Toda cidade tem os seus bosques. Suas ruas que envolvem os seus bosques, formando um cinturão. As pessoas por ali passam. Centenas. Dezenas. Mais. Menos. Milhares. O mesmo tanto. Sempre passam, quase todos os dias.

Bosques dizem muito das cidades. Com muitos bosques as cidades dizem mais. Seria como o bosque fosse um órgão vital da cidade. Sujo e mal cuidado, ele representa um tumor qualquer a matar devagar e silenciosamente. De importante a mortal.

O bosque fica em frente ao prédio. Vista frontal. Um via o outro. O bosque olhava direto para a sacada do apartamento, enquanto o apartamento não tirava os olhos do bosque. Tudo passava. O tempo, pessoas ou carros. Aquele bosque e aquele bloco de concreto não moviam seus olhares.

Aldo era acessório na história de bosque e do prédio. Uma folha no chão, um pássaro saindo ou chegando ou uma porta que produz ruídos. Ele sorria ou chorava, era um ruído. Era só isso, no máximo.

Depois de anos trabalhando, muito dinheiro e estresse acumulados, além de um recente e inesperado divórcio, Aldo pediu licença não-remunerada e se mudou. Depois de dias vazios e depressivos, o bosque lhe roubou a atenção. Silêncio, indiferença, vento e sombras. Era como se seus olhos fossem os olhos do prédio.

Aldo notava que, vez ou outra, mínimas manchas brancas surgiam de uma das partes mortas do bosque. Era uma sombra neutra com um risco ou ruga branca. Era uma escuridão irregular, uma cortina de um nada dentro de outras sombras – um tom mais pálido, um escuro seco.

Cismou com os traços brancos que brotavam daquele vazio. Desceu, como se a sombra o chamasse. Entendeu o recado quando viu que os riscos brancos eram ossos. Um fêmur, falanges, úmero. Levou para o apartamento. Tíbia, crânio, rádio, bigorna, estribo. No outro dia, outros brancos surgiram. Desceu, entendeu e buscou. Era o outro fêmur e o outro úmero.

Não se sentiu impressionado. Eram ossos limpos, como se fossem lavados de toda impureza da vida. Desceu e buscou centenas de ossos, durante vários dias. Não entendia sua andança rumo ao vazio daquela nuvem estática (nuvem negra acinzentada). Colocava os ossos em um quarto. Logo tinha todos os ossos de um corpo.

Olhava pela janela e não via mais riscos brancos. Descer ou não? Hesitou. Alguns dias depois desceu. A escuridão irregular estava diferente – percebia ao se aproximar. O silêncio absoluto agora tinha um leve som de ondas quebrando. Quando chegou bem próximo, o vazio o sugou. Sumiu por inteiro em segundos, em silêncio.


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