Tatiana Balão

de Eduardo Sinkevisque

Alices eram meninas que liam Alice no País das Maravilhas. Já te contei aquela história daquela menina que lia, não lia? Tatiana lia Alice no País das maravilhas. Já te contei? Então conte, que te conto:

– Alice, Alice, Alice…

Alice era recorrente, o verbo era recorrente e deles decorriam leitores, joãzinhos trinta que tinham trinta alices em beija-flores: trinta vestidos, trinta con¬tos. Vestidas e nuas elas saíam, não eram vistas. Vestidas eram as vistas tateadas:

Tatiana fechava os olhos, porque deles choravam cataratas. A Tartaruga era uma mulher no banho, a água lenta das cataratas se contendo, se escondendo. Ela os fechava. Tatiana os colocava no colo. O colo da história no colo da história. O livro no colo, a história lida com os peitos.

Tinha cataratas. As cataratas tinham tatianas, balões que choravam e inflavam. Tinham tatianas as cataratas. Tinham-na presa, no desejo da história: conte que te conto, conte que te colo. Conto que me conte, que me dê o primeiro conto: Colavam peitos que ali nasciam. Me embala que já te conto:

– Alice, jogue-me suas tranças!

Alice não tinha tranças. Correu atrás de uma maçã que virava coelho: as páginas do livro nos peitos que ali nasciam. Deles, vazava leite. Eles viravam buracos, bueiros onde os coelhos-ratos se escondiam: me esconde que te escondo. Te escondo, porque te escondo … te conto, te contenho, porque me esconde e tudo se esconde por onde começam os contos. Por onde passa a queda que perpassa:

– Alice Alice Alice…

– Rapunzel, jogue-me suas tranças!

Os coelhos e os olhos na vertigem dos olhos das cataratas invertidos abriam não olhos na parede. Em corrimão, o príncipe, a menina tatiava. Com peitos Tatiana tatiava. Aliterações se aliteravam, ali se reiteravam: Tatiana-Tatiana, tatiava, tateando tateava uma história sem cataratas. Concebes uma história magricela, não perversa, sem pecados? Qual? A dela? A de Alice? Aquela que te contava, não contava. Uma história com olhos, cataratas, não olhos sem olhá-los. Tatiana os fechava. Colocava o livro no colo e lia com os peitos Alices que ali nasciam.

– Tatiana, Tatiana, Tatiana, cadê suas tranças?

– Tranças, jogue-me, Tatiana, as suas!

– Tranças tranças tranças…

Alices não eram meninas que liam meninas no país das maravilhas. Cadê o espelho? Alice estrábica de espelhos luapartidos, paridos nos rachos dos seios que, letrados e sabidos, eram lambidos, liam, eram lidos.

– Tatiana, jogue-me suas tranças!

Os olhos que não viam, que ali Tatiana não tinha, perderam Alices e encontraram tatianas afogadas por cataratas que contavam alices lidas no peito, no desejo de bicos, pequenos, rachados do seio. Os olhos bateram outros olhos nos da cara dos buracos fundos fundos em que Tatiana não via, só era vista.

Quando o caminhão de gás passava na porta da sua casa, o que se dizia, na oralidade dos seios intumescidos, abafava-se com a buzina: quem quer gás? quem quer gás? O apito no ouvido tirava o ouvido do mundo. Tatiana tirada do mundo:

– Gás, gás, gás…

Alice no bueiro, o gás entrando pelo nariz, nos buracos da toca do coelho. Um apito, um cheiro e um bueiro que tiravam Tatiana do mundo. Um mundo de apitos que apitava mudo, que tirava Tatiana e colocava Alice no mundo:

– Gás gás gás…

– Quero gás, quero gás…

Quando o caminhão passava na porta da sua casa, ela corria para a cozinha, abria os bicos do fogão. Alice ficava caída nos quadrados do chão. Um braço em cada quadro, uma perna em cada quadrado. Cabeça e tronco presos nos quadrados dos ladrilhos: Alice desfolhada, descabelada, esquecida por causa do gás. Deslocavam-se balões no hélio da respiração da menina, que se deslocava com os bicos abertos, piscando em sanfonas nos cílios revirados pelo gás.

Quatro bocas, com a dela cinco e o forno taquicardeando, com a dele seis, quando grosseiras e gigantescas as coisas transbordavam, não eram vistas, miniaturizando-se nas cataratas e no estado químico das coisas.

Com mãos tateava: quero gás, quero gás. Quem queria colocava o dedo aqui, abria a boca, os bicos, colocava o dedo aqui.

-Rapunzel, cadê suas tranças? O chapeleiro? Os espelhos? Coelhos? E a sala da Rainha?

Tatiana com as mãos, Alice de quatro na cozinha. De quatro em quatro: em quadro, nos quadrados preenchidos de Alices escorregadias, escorregando gaseificadas. Tatiana com as mãos lia, com os peitos sentia, e a não visão do gás asfixiava:

– Rapunzel, cadê Alice sem tranças?

– São as tranças que te trançam, embaralham suas vistas e o gás que te empurra no chão.

Espera que te conto, te colo, me conta: quatro bocas do fogão e a menina, cheirando. O gás, o bujão, esvaziando. Ela os comprava e cheirava, os comprava e cheirava, na cozinha, quando o caminhão de gás passava.

– Alice, pula!

– Rapunzel, jogue-me suas tranças!

Os neurônios iam e vinham se deleitando na cabeça mergulhada nos bicos do gás. Tatiana inchava, inflava, baloneando com o gato e com Alice que batiam em seus neurônios. A Tartaruga, a Mulher no banho e a menina dos olhos alagados da menina no banho das cataratas perguntavam:

– Rapunzel, cadê suas tranças?

– Jogue-me suas vistas.


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