Breve tratado sobre os barbeiros

“Diziam certo dia a Bahadin Naqshband:
– Você nos conta histórias, mas não nos diz como decifrá-las.
-O que você acharia de um homem que vem lhe vender frutas
e as consome diante dos seus olhos,
deixando nas suas mãos apenas a casca?”

Jean-Claude Carrière.

Erwin Maack

Entrei pisando ora o branco, ora o preto do chão de cerâmica descascada. Do lado esquerdo, uma estante vazada de metal, com diversos tipos de chás, aspirina e outros remédios para constipação, pacotes de “Unha de Gato” e “Baba de Caracol” com nácar. Com nácar, a madrepérola, fabricam botões. Nos fundos, um balcão onde é vendido pão integral, e de onde se retiram as roupas agora embrulhadas, lavadas e passadas, em pacotes uniformes. Em um corredor à esquerda, uma índia vende milho. Grãos enormes e amarelos. Ela explica, lá na sua terra os melhores grãos não são comidos, mas ficam para a próxima colheita. O milho assim domesticado sempre cresce de tamanho, doçura e sabor. Volto para o salão. As paredes estão cobertas de quadros emoldurados contendo fotografias dispostas em quatro linhas horizontais com sete ou oito fotos em cada uma. Todas as cabeças e cabelos mostrados são de loiros e de castanhos, lisos e ondulados. Nenhum pixaim. Olhei distraído, os duzentos e sessenta e quatro modelos de corte de cabelo, homens e mulheres. No meio daquele ambiente, uma fileira dupla de cadeiras emparelhadas de costas uma para outra. Bem no canto direito, a cadeira do barbeiro. Uma mulher, grávida, de jaleco verde água, corta o cabelo de um rapaz, ignorando a minha presença. Não responde ao meu cumprimento. Termina o seu trabalho sem nenhuma pressa.  O canto é rústico, sem massa fina, na parede uma reentrância coberta com uma cortina plástica multicolorida faz as vezes de armário. Diante da cadeira um único espelho, que já mostrou coisas melhores, serve mais para a vigilância do que para verificar o resultado do corte, que é feito automaticamente. Ao terminar o trabalho, limpa o colarinho, costas, e a roupa do cliente com uma esponja de espuma. Ambos têm a pele cor de cobre, olhos oblíquos e desconfiados. Conversam cantando, falam espanhol.

Sento na cadeira que gira, como qualquer outra, mas não se fixa, dando idéia do moto infinito e repetido.  A mulher me pergunta como deve cortar. Respondo, ‘cero’,‘un’, ‘dos’ e ‘tres’, mostrando a máquina e a cada número, a parte correspondente da cabeça, primeiro a base junto ao pescoço, depois o meio, e, por fim, o cocoruto; distribuo faixas como as feitas no terreno na época do plantio.  Gosto da sensação de continuidade suave sem quebras.  Para me certificar, pergunto: “Qual é o tipo do meu corte?”, confessando minha incapacidade de encontrar no mostruário aquele que descrevi. Ela pega uma revista e mostra na secção de ‘peinados juveniles’, o de número seis. Confiro.  Surpreso por me descobrir jovem, concordo. Ressalvo que não quero aquele acabamento final, na altura do trópico de  capricórnio. Ele deixa uma faixa horrível e artificial no pescoço. “Ah, você não quer a linha.” “Sim.”

Creio que o corte de cabelo é algo simples, e deveria oferecer resultados iguais em todos os lugares. Após algum tempo, o trabalho termina e ela mostra o resultado. Eu não consigo ver nenhuma semelhança entre o pedido e o conseguido. O inexorável resultado está exatamente igual ao do boliviano que deixara a cadeira ainda quente para eu sentar. Passo a mão e constato: máquina zero até a metade da cabeça, como a marca do nível pela metade em uma caixa d’água, e a três no alto; deixou-me como se eu fosse um aimará de cabelos duros e claros, rosto avermelhado e olhos azuis. A grávida não tem tempo disponível. Ela faz tudo muito rápido, muito eficiente, para logo depois se ocupar de controlar a venda do milho, a entrega das roupas, mal conversa com o filho miúdo que anda por ali, de mãos dadas com um amiguinho, correndo pela calçada e por entre os carros. Aquele lugar me remeteu a um tempo antigo, antes da separação. Havia apenas a fome a ser satisfeita. A tarefa principal daqueles corpos estava orientada para isso. Não havia abundância, só necessidade. Nenhum objeto original, belo, destinado aos olhos. Eles só conheciam o útil.

Na esquina entre duas avenidas, faixas brancas cruzando o negro do asfalto. Um menino de Santa Cruz de La Sierra, vestido de cores variadas, vermelho, amarelo, verde, está diante de uma interminável fila de autos parados pelo comando do sinal vermelho. Ele já sabe quanto tempo pode durar a sua função.  Para comprovar sua habilidade, atira para o alto, alternadamente, um punhal, uma bola, um pão, e uma tocha, ocupando suas mãos, e deixando dois pairando, formando um arco rodopiante de objetos. Na boca tem a faca afivelada feito pirata com o corte voltado para dentro. Está de pé sobre um aparato composto de uma prancha sobre toco roliço de madeira; balançando com os pés, ora para a direita ora para esquerda.

Lembro do corte que fiz no oeste da América do Norte, quando fui atendido pela menina vinda da península de Yucatan. O ambiente era diverso. Cheio de espelhos, claros, límpidos, multiplicadores infinitos da minha imagem, múltipla silenciosa das minhas cópulas. Dentro de uma construção gigantesca, todo o lugar é inundado por uma fragrância doce. Uniforme para todos os lugares onde se praticava o comércio. Era um aviso luminoso ao olfato: devemos comprar. Composto de alamedas e praças, escadas rolantes, o frio do ar é o mesmo do piso de mármore, falsos os enfeites, plantas e rostos.  Ao final de um desses corredores, encontrei a barbearia. Um boneco de plástico lembrava um cacique antigo com uma faixa hippie na testa. A mesma moça, com traços índios, vestida agora, toda de branco, asséptica, eficiente e dedicada. Aproximou-se e perguntou como eu gostaria que cortasse os meus cabelos. Estilo reco, foi a resposta. Diante da interrogação do olhar, expliquei com a ajuda das mãos o mesmo trajeto da máquina. Zero, um,… .Ela titubeia, mas parece compreender. Talvez me quisesse dizer, que ninguém corta o cabelo daquela maneira. Fui encaminhado para uma cadeira de dentista, onde me deitei de costas. Antes, enrolaram  uma toalha felpuda em meu pescoço, e senti um jato frio de água, que se tornou quente e macio como as mãos que manuseavam o couro da minha cabeça. É impossível ficar desperto. Fui acordado e volto para a realidade giratória daquela cadeira.  Ela começou o trabalho, pediu autorização para usar a navalha e a tesoura. Assegurou que o resultado seria melhor.  Logo se aproximou outra menina e se ofereceu para cortar as minhas unhas. Aceito com alguma desconfiança. Elas conversavam muito entre si, a língua era conhecida, mas o ritmo era rápido demais. Apenas o som do espanhol me embalava. As mãos que puxavam suavemente os cabelos e as que pegavam em meus dedos de dentro da água morna faziam uma massagem não comprada, mas recebida.  Acordei ao som do pedido de aprovação do trabalho. Olhei primeiro os dedos, as pontas murchas, mas sem cutículas, unhas sem as pontas, rentes, brilhantes, emasculadas. O cabelo estava macio, curto, mas com suave topete, a máquina zero não passeou pela cabeça. Apenas a três e a dois. Acima do pescoço, não havia pele à vista, só pelos. O espelho da frente, conjugado com o de trás, mostravam a cabeça de um americano típico. Mesmo sabendo que o resultado duraria até a próxima lavagem, aceitei e disse – mentindo – que estava bom. O meu cabelo é rebelde, após lavá-lo e livrá-lo de todos os amaciantes, voltará ao normal. Cheio de ondas e que odeiam pentes. Submetem-se apenas à força da escova que atacam com as centenas de cerdas ainda mais duras.  Logo apareceu alguém para limpar o chão, antes que eu saísse do lugar. Passaram uma escova macia entre a camisa e o corpo, para tirar os cabelos, também nas pernas. Tudo foi conferido. Ela me informou, orgulhosa, que estava fazendo um curso de especialização.

O menino do farol, triste desde a notícia da morte de Michael Jackson, lê no jornal da sua terra, a lembrança do nome do artista para receber o prêmio Nobel da paz. Quer assinar a petição. Basta preencher formulário pela internet, e enviar. Enquanto devaneia, emocionado por ajudar a fazer justiça, o sinal de luz muda para verde, sem passar pelo amarelo intermediário. Ele se atrapalha com o ronco e o rugido, com o movimento inesperado, todos os vendedores se jogam nas ilhas, e para ele tudo se espatifa pelo chão e a boca fica marcada como a do Coringa.


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