Pequenos milagres cotidianos

Lúcia Bettencourt

As ilhas se dissolviam na neblina da preguiçosa manhã de inverno. Já não era tão cedo, uma boa parte da manhã se escoara sem que ela tivesse realizado as coisas que costumava fazer logo cedo. O colégio adiado, a epidemia afastando os colegas, que não tinham permissão de ir ao cinema, ela se sentia cada vez mais só. Nem o twitter ela conseguia acessar, o universo parecia desfeito. Ligou a TV, que se desmanchou em pixels desordenados. Ela ficou observando os desenhos por alguns momentos, com a curiosidade de quem surpreende uma festa ainda antes de começar. As imagens desorganizadas, sem fazer sentido, os olhos de uma apresentadora flutuando na tela antes que ela ficasse totalmente escura. Tédio.

Tentou a música, encaixando os fones de ouvido, mas um bocejo enorme os desalojou e ela não teve paciência de recolocá-los. Tédio.

Na cozinha, a empregada fazia comida. Bife de panela. Uma droga. Pensou em tomar banho, mas desistiu. Tirar a roupa naquele friozinho pálido ia deixá-la com a pele toda arrepiada, ela detestava a sensação, detestava olhar para a própria pele e não conseguir reconhecer sua maciez e textura habituais. Voltou a cozinha e ordenou: Faz brigadeiro! A empregada soltou um muxoxo, dizendo que não tinha leite condensado, nem chocolate em pó. Droga. Ela abriu a geladeira, e não encontrou nada. Nenhum refrigerante, nenhum iogurte, só fruta, couve-flor, nada que ela gostasse. Abriu a despensa, procurando biscoito. Nenhum.

Voltou ao twitter. Fora do ar. Caixa de mensagens. Vazia. Tédio.

No banheiro da mãe, abriu potes de creme, cheirou os frascos de perfume, experimentou os batons. Passou a escova nos cabelos, que mantinha longos, resolveu que daria cem escovadas, mas perdeu as contas antes de chegar às vinte.

Foi examinar as gavetas da mesinha de cabeceira da mãe. Lixa de unha. Comprovantes de pagamento. Medalha de santinho. Oração. Caneta. Termômetro. Corta-unhas. Alicate. Espetou o dedo num alfinete. Droga. Com o dedo ferido entre os lábios, ela saiu do quarto e voltou à cozinha. Abriu de novo a geladeira e ficou olhando o conteúdo, desanimada. Tomou um copo d’água. Mexeu nas tampas das panelas.

O toque do telefone levou-a saltitando para a sala. Caprichou no alô. Era telemarketing. Irritou-se. Depois decidiu ligar para alguém.  A melhor amiga não estava. Devia estar na quadra, com os amigos do condomínio. Só ela morava naquele prédio metido a besta, mas que não tinha nada para fazer. Ligou para o celular. Fora de área. Ligou para o trabalho da mãe. Reunião. Experimentou o twitter. Fora do ar. Ainda? Será que o mundo estava acabando?

Fim do mundo.  Olhou pela janela. As ilhas se dissolviam na neblina, que perdurava. Nada para fazer. Ninguém com quem falar. A empregada chamava para o almoço: Arroz, feijão, bife de panela, purê de abóbora. Não vou comer esta droga! O bife está duro, o feijão você deixou queimar! Está tudo uma porcaria. Telefonou para a mãe. Posso pedir pizza? Não tem nada prá comer, você não faz mais compras, aqui em casa não tem nada prá fazer, a TV está fora do ar, o twitter também. A mãe escutou, paciente. Vou tentar voltar mais cedo, aí a gente sai. Vamos ao supermercado juntas, tá bem? Não, nada estava bem! Ir ao supermercado? Quem a mãe pensava que ela era? Por que é que ela havia nascido? Prá levar aquela vidinha miserável? Ela preferia morrer, teria sido melhor se tivesse nascido morta! Gritou. As lágrimas escorreram pelo seu rosto, e ela se sentiu a mais infeliz de todas as pessoas no mundo. Voltou ao banheiro da mãe, procurando alguma coisa para acabar com sua miséria. Nenhum remédio para dormir. Foi até o armário de bebidas da sala, mas a empregada ameaçou.

Se atirou na cama, chorando, maldizendo a vida. Acabou dormindo. Quando acordou, o twitter tinha voltado. A TV também já funcionava. A empregada tinha feito bolo. A xícara de café com leite estava preparada do jeito que ela gostava. A vida era boa.


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