Claviculário

de Eduardo Sinkevisque

Menino não chora. Não chora menino que não demora. Maria dava a rima, fechava os olhos e perguntava: Seu Pinto, o Sr. está olhando? Não conto, não conto, não conto. Ponto. Pronto. Mariazinha fechava os olhos, se não não contava. Fazia bico, colocava Cecília na boca e embalava: estou te vendo, estou te vendo, estou te olhando pelo estreito do terceiro conto. Pronto. Ponto. Outros dois pontos: Cecília comeu a língua, com ela falou de um poço.
Maria debruçou as vistas sobre um vejo-não-vejo, sobre um não queria que visse, ninguém a visse: jogou-se no poço, atirou seu olho e jogou de novo. Jogou-se. Não jogo, não jogo, não jogo. A menina não sabia ser assim tão fundo. Debruçou as vistas de um agora-vejo: jogue-me, Gorda Gordona, as suas, engorde meu olho. Declarou estar engordando, engordando, te olhando na magreza das reticências … preenchendo a folha com seu corpo.
Descansava no fundo, no fundo no fundo de um nem te conto, um olho de menina e um de menino: quem é Cecília toda boca? Maria comeu e se disse sem fundo. Um poço fundo na vagina, uma menina: não conto, não conto, não conto; te dou uma birra. Ponto. Outro ponto, segurando a ladeira na esquina. Outro, um em cima do outro: boto Cecília nas reticências … No meio do poço, Mariazinha via, iam seus olhos quando os baldes margaridas caíam: estou descendo, disse o espreito. Disse o parapeito quando tirou os espinhos do príncipe e devolveu os rabanetes. Seu Pinto virou espinho quando um deles se retirou de seus olhos: estou te olhando nas reticências … estou te olhando, mas não te vejo.
No meio do olho, o poço de Mariazinha: estou voltando, disse-já-disse. Gargalhou Alice. No meio do poço, o olho da menina: caíam baldes ao subir do menino.
Ele tinha, nos cílios, maços de margaridas extraviadas ao poemá-las redondo. Ovo, ondo, amarelo, roxo: Seu Pinto, me dá uma? Volte e comece de novo.
O poço debruçou o peito sobre os peitos-poços de Mariazinha. Os bicos se esconderam: gargalhadas enfarolando o escuro mudo no eco tenho medo: trouxemos a chave, falaram os cílios.
Joãozinho abria o poço. Com seus olhos, um maço de margaridas. Abria o que abria. E quanto mais ele abria, mais ele abria.
De cima do poço , agora, a menina o via. Ele tentava enxergar ela lá em cima. E quanto mais margaridas para cima, seu olho ia. Virava cílio quando os cílios margaridas subiam: trouxe! Trouxeste?
Não conto, não conto, não conto. Dá de volta minha birra. Ponto. Conto. Outros dois, pontuando aqueles outros: Maria diminuiu ao bater cara no muro. Quando olhou, já era imenso: não conto, não conto … um ponto depois do outro, depois do outro …
O menino era menina. Azulvermelho. Rapunzel pulava tranças, a corda foguinho não brinco mais, levantava a saia e o via. Iam seus olhos quando viam: menino não chora. Não chora menino, que não demora. Mariazinha contou até três. Disfarçou, subiu no muro. Ao contar, encontrou Seu Pinto. Ao encontrar, já era outro. Cecília mostrou a língua, saiu do castigo das reticências … Comeu de novo. Pronto, aqueles dois, um em cima do outro: com quantos príncipes seca-se um poço?
Diziam a ele que ele não era ele. Tudo porque chorava: meninos não choram. Mais nada. Mas aquilo o derretia, o empoçava. Mariazinha lá em cima a perscrutá-lo.
Diziam a ela que ela não era ela. Mas se chorasse era menina. Mais nada. E o ar pingava, o parapeito a consolava e a fazia menina: meninas choram, meninos fazem chorar. E o ar pingava, o menino chorava e Alice, descendo, gar¬galhava, galhofando:
– Tá bom, conto, conto, arrasto outro canto para teu conto.
A menina jogava a chave. Ele abria. Abria a boca e Cecília falava, depois de fugir do castigo, da desobediência: quantos me descegam, aos dissecá-los por inteiro? Com quantos poços se descega um príncipe? A resposta saiu de três pontos, dois na frente e um fechando os aparentes: com esses espinhos nas mãos e outros imensos.
– Estou te olhando, mas não te vejo. O menino cegou a lua. E cega ficou. A lua cegou o menino. E cego ficou. Ponto e vírgula; primeira lágrima depois daquele encontro, depois daquele olho no poço. Ponto. Depois te conto, porque não estou para lágrimas, nem para contos.
Seu Pinto desapareceu aos poucos, aos poucos poucos que se enxugavam em lenços: Cecília, me dá uma frase? me dá uma estrofe? Ajuda a empurrar a menina no poço.
Ela ficou lá em baixo, no diminutivo de Maria, sem perceber, deixando-se perder. Encolhida ficou a menina. Perdida como um sabonete: uma odiosa comparação que lavava a mente. O príncipe, menino, no aumentativo de João, lá em cima sem perceber nem ver: me venda, se não não te olho, sem vendas não choro.
– Maria, você invertia a estória, as coisas, na Paulista?
Mariazinha vendou o príncipe quando Joãozinho subiu vendado. Inverso, invertido e hibernado: um menino que aumentava aos poucos, aos cânticos prantos que se enxugavam em lenços. Voltou aos trinta, aos beija-flores e começou tudo de novo: conto, conto, conto … pressuponho fala no meu conto, pressuponho tudo e mais um pouco.
Gorda Gordona botava ovos gordos nas reticências, nas malditas que castigaram Cecília. Gordo. Ponto. De novo. Olhou Seu Pinto, mas não te vejo. E quando espiava já era imenso.
Quando espichava já eram os lenços. Espiou, auscultou, os outros desaparecendo imensos.
– Com que lágrimas se escreve isso?
Escreveu no muro, que a cara bateu cara no muro: com um “éle” bem longo e esgrimas nos olhos. Com umas lágrimas margaretizadas, decepcionadas por um furo no peito.
Quando olhou o furo, o menino era imenso. Quando viu o menino, o furo era extenso. O príncipe lá em cima, seus olhos agora no parapeito. Ela lá em baixo com seu músculo batendo no peito. Quando pensou, o pensamento era imenso: Maria menina brincando de cima em baixo. Agora lá em baixo com os cadeados e as chaves que abriam portas em seu corpo. Por extenso: com que portas enxugo minhas lágrimas? Com que poço conto o que não posso?
Escolheu a mais salgada, aquela que estava emperrada. Trouxe o ferrolho, disse a porta: trouxeste a chave? O menino ficou sem boca: Joãozinho não chora, enxugue as flores e recomponha o molho dos maços, porque você é macho, é macho, é macho … Seu Pinto ficou calado, bordeando o poço cadeado. O menino lá em cima jogando olhares de não te vejo, cílios margaridas. Quando via, espreitava, espalhava os olhos pelos seus peitos. Estiava, estiava, estiava … Queres que te conte uma estória?
A menina abria. E quanto mais ela abria, mais ela abria. Mais margaridas eram despejadas. Mais fundo ficava. Mais se fechava … mais portas abria e fechava. A menina juntava-se ao molho de margaridas do menino. Mais fundo ficava. E ocos ficavam seus olhos. Despetalados ficavam, enquanto a porta salgava sua lágrima. Emperrada ameaçava:
– Maria, me dá meu conto se não eu te pego.


%d blogueiros gostam disto: