de vidro transparente

Gerusa Leal

Sinopse dos fragmentos anteriores (edições 38/40/42/46): uma nova moradora mobiliza a curiosidade do povoado. Tião – marceneiro – é chamado para fazer prateleiras na casa dela e na condição de testemunha privilegiada passa a ser o centro das atenções das pessoas reunidas na pracinha. A areia branca e fina no mini-jardim japonês da moça faz Tião voltar no tempo, aos seus dezesseis anos, quando viu o mar pela primeira vez. O farmacêutico local, Vitor, não comunga da opinião geral de que a moça mexe com ciências ocultas, e acredita que deve ser uma estudiosa de alguma área especial de interesse, assim como ele, que se considera um cientista. A opinião de Vitor vai mudando a atitude das pessoas, exceto a da redatora da gazeta, Laura que, percebendo o risco de sua fama de mulher mais letrada da comunidade ser ofuscada, insinua que ela tem o que esconder e começa a investigar a vida da moça. Laura mantém um romance extra-oficial com o vereador, Edilásio, seu protetor que voltando inesperadamente de curta ausência, a flagra bisbilhotando a casa da moça. E Ediásio…

questão de ordem

O aluguel das casas e do prédio na pracinha, somado ao subsídio – que Edilásio fazia questão de dizer que não era operário para ter salário nem advogado para ter honorário -, garantia que desfrutasse de posição privilegiada na comunidade. Além de proprietário da construtora local e da administradora de imóveis – tocada por Laura, a redatora da gazeta, com a ajuda de uma estagiária -, era presidente da associação de moradores. Não diretamente – Vitor, o boticário, era o presidente oficial -, mas nada se decidia sem a aprovação de Edilásio. A construtora gerava três empregos diretos: o do mestre de obras, o do pedreiro e o do servente – fora a demanda por outros profissionais na fase do acabamento – inclusive Tião, a quem sempre era entregue o trabalho de marcenaria.
Em frente ao prédio, fica a residência do vereador, como é chamado pelos que não têm intimidade com ele. Os que o conhecem mais de perto o chamam de vereador Edilásio. Mas só Laura, e mesmo assim não em ocasiões mais formais, trata-o por Edilásio.
A casa é grande – um palacete como dizem os admiradores e detratores. Além da casa, mantém uma fazendola a poucos quilômetros, onde cria algumas cabeças de gado. Coisa pouca, mas para os padrões da comunidade justificava o apelido de barão – usado quando pensavam que ele não estava por perto.
A falta de um evento especial, alguma ação, suspense, uma surpresa, já deve estar causando certo tédio em alguns que julgam desnecessário e maçante tal excesso de detalhes sobre um personagem que não fez nada, ou melhor, já fez e faz muita coisa na vida – embora as más línguas digam que pouco trabalhe pra valer -, mas que ainda não contribuiu em nada para o desenrolar dos acontecimentos. Não parece, em absoluto, uma maneira recomendável de se contar uma história. Mas as regras existem para serem quebradas – assim pensava Edilásio -, e rezava por essa cartilha. Além do mais, se não se fala na vida alheia, não se atende aos indiscretos e curiosos de plantão, disso sabia Tião muito bem, e tirava todo proveito que podia contando ou inventando sobre o que vira na casa da moça enquanto instalava as prateleiras encomendadas.
Pois o barão podia ser tudo menos mesquinho. Era caridoso com os que o procuravam precisando de algum. Desde que, é claro, tivessem com o que pagar e na devolução do empréstimo acrescentassem alguns trocados – para demonstrar gratidão.
Edilásio era metódico: a não ser por algum motivo muito forte, mantinha a rotina. Passava todos os fins de semana com a família – a mulher ficara para dar suporte aos filhos, que ele fazia questão freqüentassem as melhores escolas da capital. E pelo bem da família, para cumprir o mandato – que era o segundo -, se submetia a morar durante a semana na modesta mas confortável casa da pracinha.
Por isso Laura estranhou, na verdade assustou-se, quando em plena noite de sábado ele a surpreendeu bisbilhotando a casa da moça. Edilásio é que nem se abalou – já estava acostumado às particularidades do caráter de Laura que, a bem da verdade, além de a fazerem mais sedutora a seus olhos, muitas vezes lhe eram bem úteis.
Assim, passou-lhe o braço pela cintura e foi contando como havia sido a viagem, e convocando de imediato uma reunião extraordinária, em sua casa – já era tarde para abrir o escritório -, para que a colocasse a par das novidades, pusessem a agenda em dia, cuidassem dos interesses comuns.
Mas Laura invocou uma questão de ordem, insistiu em primeiro ver o souvenir que lhe trouxera dessa vez. E seus olhos brilharam mais que as pérolas do colar.
Depois dos agradecimentos, a novidade: a mulher viajara para visitar a mãe e os filhos estariam na casa dos amigos; ele alegara a conveniência de aproveitar para trabalhar, então fora à capital apenas para cuidar de alguns interesses – e voltara para lhe fazer surpresa.
E Laura, o que estava fazendo às escondidas em frente à porta da moça? Averiguações, Edilásio, averiguações. Ainda iria provar que estava certa a respeito da forasteira. Mas isso era assunto para depois.


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