Primeira Carta aos Romanos Albinos [com abolição de versículos e em forma texticular]

Wesley Peres

Há coisas realmente chatas, como ouvir por todos os cantos essa história de que estamos no tempo da fragmentariedade. Sim, é assim que dizem por aí, fragmentariedade. Não sei muito o que pensar a meu respeito. Pesquisando, que não confio nas pessoas. Aprendi algo também repetido até me dar náuseas, algo que é um senso comum científico: que se você pensa que está ficando ou que é louco é porque você não é louco. Penso que estou ficando louco e que, contrariando a babaquice livresca psico-analítica-quiátrica-etc, sou mesmo louco, psicótico, esquizofrênico-paranóico, o-que-não-se-diz, azinhavre, muitos beiços e tal.
Sim, tenho emprego, sou um publicitário do caralho, segundo me dizem. Sou meio sem diagnóstico. Quer dizer, às vezes tenho diagnóstico, às vezes não. Depende da loucura do médico em que vou, ou da qualidade/precariedade de sua formação. Às vezes sou esquizofrênico paranóide, às vezes sou um caso sem dignóstico. Como disse, disse?, sou inclassificável para mim mesmo. Não sou publicitário. Menti. Sou uma mentira, ou várias. Trabalho como psicanalista. Nas horas vagas, sou escritor. Escrever não dá dinheiro, por isso me finjo psicanalista. Psicanalista dá pouco prestígio, exceto com as mulheres, em situações barísticas, elas bêbadas.
Tudo bem, não sou psicanalista, sou publicitário. E tenho um nome ridículo: Daniel Paul. Homenagem de meu pai a um famoso escritor alemão, especialista em doenças dos nervos. Também sou teólogo, mas só de madrugada. Sou casado, sim, os loucos se casam. Tenho dois cachorros e uma tartaruga. Ah, e uma filha. Se chama Elisabeth. Conhecida por todos como Elisa. Tem dez anos e diz coisas que me faz desconfiar que ela também é sem diagnóstico. Respeito muito pessoas sem diagnóstico. Por isso minha admiração por Elisa, vulgo Elisabeth, apesar de ser minha filha.
Claro que esse auto-desdém é uma fórmula narcísica, ao contrário, de expressão. Não sei se comentei, mas dou aulas na universidade, sem estar dentro dela. Dou algo que chamo de Seminário de Psicanálise. OndeQuando falo de Georges Bataille, de Cioran, de Cora Coralina (sim, tenho um lado perverso, além de paranóide), e, vez ou outra, chego mesmo a falar de Freud, de Lacan. Só não falo do Winnicott, porque ele acha que os seres humanos são essencialmente bons. Não me dou bem com metafísicos, prefiro metas físicas, um nome simpático para a pornografia, a primeira e melhor dentre todas as artes.
Recebi homenagem, no meu nome, a Daniel Paul Schreber, um especialista nas relações entre nervuras e alma. Um especialista em Deus. Um teólogo-humanista, o primeiro e, talvez, o único. Não, único não, pois que sou o segundo, seu seguidor, difusor, e criador de novas glândulas produtoras de teologia-humanista. Sigo Schreber sabendo que ele é um comediante, um trágico.
A alma humana está contida nas nervuras do corpo. O corpo está contido na alma humana. A alma humana é carne, embrulhada em pele de ótima qualidade, se feminina. Adoro pele humana de ótima qualidade. Sou um caso de paranóia, ou esquizofrenia paranóide, que contraria a psicanálise de Freud, o Cristo da psicanálise, pois que Deus é Sófocles. Tenho remorsos em ser um ser que contraria Freud, mas não nasci para ser um pacifista.
Aprendam com Paul Schreber, o filho, que o Schreber pai era um torturador filho-da-puta que, apesar da mãe bela-meretriz (fortuna que impossibilita usar sua biografia para atenuar seus atos), torturou o filho o suficiente para produzir nele o nervo da genialidade. Os nervos do corpo, vibram, produzem notas inaudíveis, prazer-desprazer, o que Lacan, seguidor de Schreber, Daniel=Filho, chamou de Gozo, com G maiúsculo, daí, talvez, o termo “ponto G”.
Uma parte dos nervos é capaz de volúpia. Atualmente, são chamados de nervos Scarteth Johanson, amanhã sabe-se lá que nome terão. Terão. Terá. Terã. Sexo e guerra sempre aliterando. Forço a barra, eu sei, sou um seminarista-psicanalista sério, portanto não perco um raminho de possibilidade para a possível geração de chistes.
Os nervos habitam os músculos, e levam os músculos a manifestarem o que, sem os músculos, seria metafísica, e de botequim: os afetos. Surgimos embrião, alma bestial, uns quilogramazinhos do que será depois uma coisa que se angustia pensando de modo oscilatório em morrer e em trepar. É nessa tensa equação que a vida, o DNA, nos obriga, sem que saibamos disso, a investir em loiras de olhos azuis, em morenas de olhos azuis, em negras de olhos azuis, sim, tenho fetiche por olhos azuis, a vida obriga a isso. A investir tempo dinheiro e pensamento para arquitetar um jeito de proliferar-se algo de si em olhos azuis.
Há os nervos (Memórias de um Doente dos Nervos é a minha Bíblia, e a Bíblia é a minha Memória de um Doente dos Nervos) sensoriais, e os nervos-pensamento, ou seja, nervos empiristas e nervos platônicos-cartesianos. Em cada molécula de cada nervo platônico-cartesiano, temos a reprodução territorial de todo o conjunto espiritual do homem.
Percebo, no entanto, o que há de loucura em Schreber, pois que sou mais para sem diagnóstico, e não um louco genial tão genial que escreveu um livro que é a minha Bíblia. Que deveria ser a Bíblia de todos que sabe que este mundo acabou antes mesmo de começar. Graças a Deus.
Hoje acordei e não escovei os dentes. Quando não escovo os dentes fico deprimido. Por isso não escovei os dentes, estava deprimido porque sabia que não teria ânimo de escová-los. Não tomei o antipsicótico. Não tomo há dias. Assim como há loucos geniais, como Paul Schreber, há os chatos, como Carlos Gustavo Jung. Um esquizoerudito. Esquizofrênicos são chatos. Eruditos são chatos. Preciso dizer mais nada. Mas digo: a verborragia de Jung me cansa, não sei como ele conseguiu ganhar o Nobel da Literatura Tibetana, mas ele ganhou. Apesar de Suíço, ele renovou a literatura Tibetana. Para pior, evidentemente, que rima com demente, que não rima mas deveria rimar com Jung.

A coisa acima, transcrita, é uma carta que recebi do meu pai. Sim, eu sou os Romanos Albinos a quem ele se endereça, apesar de eu não ser nem romano, nem albino e, muito menos, ser vários romanos albinos ao mesmo tempo. Não que eu saiba. Meu pai é paranóico, para a psicanálise; esquizofrênico paranóide, para o DSM; possuído pelo Demônio (que imagem metrotranscendental, não?), segundo os evangélicos; obsediado por espíritos, segundo os Compadres Queleméns da vida. Ele não se chama Daniel Paul, e sim Paulo Daniel. Daniel Paul sou eu, infelizmente, e, sendo psicanalista, tenho de agüentar um turbilhão e meio de piadinhas de cunho schrebiano. Não fazem idéia de quanto ouvi na vida a palavra Schreber. Segundo meu pai, os Schrebers (o pai e o filho menos o espírito santo, amém) foram e são e serão os maiores homens da história da humanidade. Por isso, prefiro que me chamem de Schmulek, que é o meu sobrenome que não me foi passado. Schmulek é o sobrenome que meu pai recebeu por parte de mãe, e a mãe dele-meu-pai, minha-avó-portanto, é filha bastarda de um judeu-alemão que veio parar, não faço idéia como nem porquê, ou melhor, não parou, e sim passou por Goiás, ficando aqui tempo suficiente para engravidar minha bisavó, mãe da mãe do meu pai.

Schumlek, não me reconheço nesse nome. Não me reconheço em nenhum outro.


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