Cadela

Dheyne de Souza

Tudo que poderia retirar dali, antes, de si a partir daquele olho, desmazelo de sede, fome, era cio.
Mas era de si que tratava, dos seus batons enumerando os dias no espelho de bordas ferrugens, as suas meias desfiando as mãos de calos, os seus não pelos margeando o gozo. Do que tratava era o tempo embotado nas cores, nas sedas, no esmalte desgastado dos dentes. Não era o lençol limpo onde caíam os joelhos, era a borda do colchão das unhas. Não a janela, a porta, a banheira, eram os cantos consumidos das horas. Eram as arestas das omoplatas caídas, as esquinas das tintas nos olhos, a imprudência do choro. Não era o corpo abotoado e rasgado, cedido e catado, puro. Era o ângulo num elemento escapado, uma fatia do não, do nunca, do nada ameaçando na quina. Era a noite que não caía com a água,
a nuvem que não saía com a espuma,
o poro que não saciava com o rouge.


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