O sol que atropela

Leandro Resende

O quase silêncio da madrugada com a quase escuridão do prédio contrastava com a vida agitada daquele lugar. De três turnos ativos, a empresa passou a atuar em dois e, razão dos problemas financeiros, deu férias coletivas. O estacionamento, as marcas no chão, nenhum carro. Apenas o dele, na vaga reservada para o diretor-presidente.
Quatro horas da manhã. Não era a primeira vez que ele caminhava naquele lugar neste horário. Mas talvez fosse a última vez. A empresa, os dois mil funcionários, 25 lojas, 850 computadores, 300 veículos e mais uma lista interminável de coisas grandes e pequenas, de livros-caixas a um álbum com fotos de garotas-de-programa dentro do terceiro armário da presidência – que também será entregue ao amanhecer, quando os novos donos assumem.
Tudo fora vendido. Dois mil funcionários foram vendidos. O prédio e os carros foram vendidos. O lixo do banheiro, os tapetes na entrada, o ninho no teto, a caixa d´água, os novos uniformes encomendados que ainda vão chegar…
Toda empresa foi entregue, depois de 46 anos com a família. Para as contas da empresa, a dívida incontrolável foi como se um vento forte sobre um montinho de folhas secas.
Andrei, o insone empresário quase ex, aprendeu, com pais e avô a se perguntar: “o que tenho a ganhar.”
Mas, nos dias de derrota, ninguém lhe alertou sobre o que poderia perder. E, perdendo sem perceber, foi à lona.
O sol já começa a dar sinais. Anda mais um corredor, agora lentamente. Para e lembra que tem de trocar aqueles vidros, estavam trincados. Seria bom pintar todo rodapé, que também já está descascado.
Era melhor pintar tudo do que ficar pintando aos poucos. Já me alertaram que a fachada e o muro da entrada está fora do aceitável para o tamanho da nossa empresa. Vou pintar tudo e trocar esse portão eletrônico que é bem lento. “Já está amanhecendo, vou embora.”
No mesmo dia, os novos donos assumiram a empresa. Vários setores foram trocados completamente.
Andrei resolveu passar alguns dias fora da cidade. Não queria assistir a destituição de toda sua família tão de perto.
Mesmo assim, quatro dias depois, resolveu passar na porta da empresa. Lembrou do muro e dos rodapés e dos vidros. Parou a carro na portaria. O atendente, que ele não conhecia, o pediu os documentos. Fez uma ligação e o informou:
“Sua entrada não foi autorizada.”


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