Sertões de Catita

Maurício Melo Júnior

Tinha setenta anos e uma morte nas costas. Morte de hidrófobo, feita na espingarda, no olhar frio do homem. Setenta anos de fugas, de fugir de sóis, fitas, páginas.
Gestos heróicos e um profundo olhar de humildade.
Tudo no entorno lhe era estranho. O cheio do ar onde a sequidão empregava cores de normalidades, os edifícios, as ruas largas. O sol a castigar a pele magra, as costelas avultadas. Esse gramado sem fim, sem preá, sem arribaçã, tinha dois meninos mais um homem e mais uma mulher, como no sertão de sempre. Serenavam deitados sob a sombra magra de uma árvore esturricada, seca, de ganhos retorcidos, com altura somente para mantê-los de cócoras frente aos teréns, aos molambos, restos de uma comida pouca.
Marejou os olhos numa saudade de sua gente perdida, migrada na força da fuga. O cheiro da terra domando o coração. Pulou e correu brevemente. Lembrou os olhos vermelhos do preá.
Em suas brenhas, quando o chão secava de vez era de preás e calangos que se valia. Tangia os bichinhos tresmalhados de branco e marrom, por vezes um pretinho acolá, e na espreita, em carreiras e ordenanças, os encurralava, não os deixava encontrar as tocas profundas. Êh, gado, êh. A fome é bicho que mata a gente de menor grau, apaga a brasa bonita da trempe do seco vau, mas do doutor de gravata, não olha nem pro degrau, êh, êh. Tangerino, gibão, vaqueiro, tudo sua foice cepa, suga a força do bravo que vive longe da beca, mas no povo da cidade é sua sede quem seca, ohhh.
Uma música antiga.
A cidade mudou e deu abrigo também à fome, se via. O ajuntado de um homem, uma mulher, mais dois meninos, jogava nas bocas, vencendo a força miúda do vento, os farelos de uma farinha braba misturada numa carne esturricada e pouca. Não tinha voz sequer para falar da miséria, do desejo de voltar pras brenhas distantes, longe do mendigar humilhante.
O homem que não sustenta no braço a prole merece pisar no chão?
Tinha somente perguntas na cabeça miúda.
Setenta anos de perguntas inúteis.
Olhava um quadro de retirada. Tudo lhe era bem familiar.
Viu outros sertões nessa vida de sofrer e glória. No Recife, quando ainda não tinha vindo ao mundo, sentou para um descanso na beira do cais. O rio batia de peito com o mar, uma briga de águas infindas, enquanto o navio partia. Tudo era movido por tristezas e injustiças. Um apito acordava o dia no quase vazio da praça, um deserto, sertão debruçado sobre as águas. Não impediu que a lágrima solitária escorresse de seus olhos, pois sabia que lá no navio ia também seu futuro e a eternidade se fazia de um sertão efêmero, campo largo, árido, um mundo enorme, tudo enorme – bichos, homens, meninos, onde os preás gordos vadiavam.
Chegou ao frio de Praga no meio de papéis, no rumo daquele sonho, numa língua que não sabia de onde vinha, pra onde ia. Era também madrugada e mesmo a neve se vestia de escuro no sertão da noite que findava. Um homem deixou o hotel e seguiu um caminho estranho. Bateu canela atrás do cidadão vivendo da certeza que com ele tinha segurança e vida. O homem acendeu um cigarro e tentou equilibrar o vício no canto da boca, protegê-lo do vento à Sibéria, dos flocos da neve que caía. Obrava um milagre no meio daquela cruviana braba. O homem caminhava mudo, guiado pelo tição vermelho do cigarro, um olho de preá, botando curiosidade em tudo, mas não lhe enxergava. Rodou ao léu pelas ruas daquele outro sertão até cansar os ossos. Voltou a entrar no hotel deixando no frio quem lhe seguia.
Voou também pelos ares – isso muitos anos depois – para chegar em Cannes e beber a água salgada do Mediterrâneo. Outro mar, outro cais, outro sertão. Havia alvoroço de gente, correria, cotoveladas, espremidos, uma ingresia danada, protestos e alegrias, choros e risos. Um sertão com muitas pernas e falas.
Mundo doido, esse dos seus setenta anos.
No intervalo entre a falta de comida e o resto da fome, os meninos lhe descobriram. Olha, parece Catita, chega cá Catita. Não gostou do nome. Trazia de nascença um outro bem mais nobre, vindo dos mares, colossos dançando o acasalamento no leito dos Abrolhos, e isso protegia da raiva, e isso pouco lhe valeu, mesmo assim se deixou simpatizar pelos miúdos, também dois. Caso houvesse preás naquele campo verde ainda molhado pela chuva da noite anterior, mas já marcado pela brasa do sol forte, bem que caçaria uns quatro ou cinco bichinhos para alimentar aquela gente, sua gente perdida na morte, na fuga.
Brincou com todos, fez a festa. Correu pelo gramado com os miúdos, tomou distância dos velhos, do homem e da mulher envelhecidos, que continuaram sob a árvore humilde, sob a solidão da miséria.
A alegria se partiu na ameaça que corria na direção dos meninos. Da boca rosa corria a baba de sua fúria ancestral, faiscava ódio de seus olhos miúdos, apertados, de sua cara achatada, uma força descomunal em cada músculo carregando o garbo e a maldade da raça. Alcançou a bola presenteada num Natal de caridades e largou a bicha murcha e inútil. Pegou a perna franzina e seca do menino mais novo. O coitado chorou alto de dor, ouvindo o estalar dos ossos frágeis.
O instinto deu-lhe um choque. Como em seu sertão de sempre, ancestral, Mateus primeiro os meus, pulou no pescoço do bicho tirano, assim fazia no final da brincadeira da sobrevivência com os preás, e daquele garro não largou. O outro foi quem soltou a perna magra do menino que se arrastou na direção dos pais.
Segurava a mordida no toitiço do desgraçado. Aquele osso só largaria no fim da luta. Sequer sentiu a dor quando o desespero do inimigo lhe arrancou um pedaço da orelha. O gosto do sangue vivo escorria pela boca, agigantava suas forças. O tirano gemia, grunhia, corria, pulava, rolava e nada. Pelo pescoço rasgado escorria toda força vital de sua vítima. Os minutos passavam no ritmo de horas.
De repente tudo serenou. O tirano estrebuchava no último esforço inútil de segurar a vida do próprio corpo. Tremia cada vez mais fraco nesta sua passagem definitiva. Era tempo de acalmar a fúria e largar o quase cadáver. Serviço feito, limpou na grama o resto do sangue que marcava a boca e pôde então olhar o mundo. Novamente só. O homem mais a mulher e o menino mais velho corriam com o outro nos braços. Estavam já longe. Não teve ânimo para segui-los. Nas costas pesavam as dores de sempre estar na busca de companhia e compreensão, mesmo assim se deixou ficar sob a sombra miúda, junto aos teréns, cubando o morto se cobrir de moscas, como as que pousavam no que sobrou de sua orelha.
Não sabia se teria vida para agüentar o novo espera ou se logo partiria para outras esferas.
Setenta anos.
Nenhuma cadela vive tanto.

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