Barra Circular

de Jorge Barbosa

Depois de vinte anos de trabalho, enfim, Marcelo preparava-se para realizar seu maior sonho. Isabelle, como sempre, não gostou da idéia. Uma mulher de personalidade forte e acostumada dar as ordens em casa, não aprovava a idéia do marido em tirar férias longe da família. Mas, pouco importava isto para Marcelo, decido foi despediu-se dos colegas, queria ganhar tempo e preparar-se para estas que seriam seus dias de liberdade.

– Pessoal até logo, vou pra Coxa bamba.

E assim se despediu dos amigos. Ainda na cidade lembrou que precisava passar no banco para sacar dinheiro e fazer os preparativos. De posse do dinheiro andou por algumas lojas do centro. Queria comprar uma mochila ao invés de ir com malas, quanto menos coisas carregasse seria melhor.  Parou numa loja esportiva. Na frente, muitas bolsas e, também, muitos ciclistas que pararam numa barraca de água de coco.

“Poderia fazer uma viagem assim” Pensou. Parecia bem convincente sua idéia de viajar de bicicleta. De cara ficaria livre de dois problemas: primeiro seria os horários do ônibus e, o segundo, Isabelle que detestava qualquer coisa que circulasse sobre duas rodas. Meio sem jeito Marcelo aproxima-se da barraca para pedir uma água. Observa o grupo de atletas que pareciam cansados. Do lado dele um senhor de óculos escuros e boné gasto pelo tempo, segurava uma bicicleta tipo barra circular, bastante antiga, pneus desgastados.  No Bagageiro, algumas sacolas.

Depois de alguns minutos o senhor parece querer romper a curiosidade de Marcelo. Resolve iniciar uma conversa:

– Olha moço, tá vendo esse monte de ciclista? Não andam nada. Esse pessoal brinca de andar de bicicleta.

Marcelo prestou atenção ao senhor de aspecto mulambento. “Quem era ele para falar de um grupo de jovens, todos equipados com bikes modernas?” Porém, o homem percebendo a descrença disse:

– Olha meu jovem, ta vendo essa bicicleta veia caindo os pedaços? É com ela que acabei de vir da Paraíba. Andei praticamente todas as cidades daquele Estado e daqui vou continuar até São Paulo.

Em tom de ironia Marcelo provocou:

– E se eu comprar uma bicicleta posso ir com o senhor?

– Duvido muito que agüente acompanhar meu ritmo. – respondeu o velho dando tapinhas nas costas de Marcelo.

Apesar da descrença Marcelo entrou na loja de bicicletas. Não faria uma viagem longa, mas pelo menos teria a possibilidade de fazer algo diferente. Pagou a água de coco e, de cara, convidou o senhor que estava ao seu lado. Fez questão de ir puxando a bicicleta até a loja. Parecia se estabelecer uma nova amizade.

– Como o senhor se chama?  Pergunta Marcelo

– Sebastião, mas pode chamar de Tião

– Marcelo. Prazer

Chegaram à loja, encostaram a bicicleta e entraram. Havia muito modelos de bike. Das cross até os modelos speed, no entanto, Tião no alto de sua experiência aconselhou para que comprasse mais tradicional e apontou para o modelo semelhante ao que ele transportava. Apesar de estranhar um pouco Marcelo comprou uma barra circular. Vermelha, com para lamas prateados e dois retrovisores. No inicio, estranhou a curvatura do guidão e a altura da cela.

– Tião, que coisa estranha essa bicicleta – Dizia fazendo zigi-zages – Tenho a cessão que estou sentado num banquinho, pedalando.

E assim foram até a casa de Marcelo. Lá, depois de todos os desentendimentos, Marcelo vestiu a camisa que mais gostava: azul com faixas brancas e azul mais escuro, calça jeans e um tênis. Os documentos e cartões distribuiu pelos bolsos. Despediu-se do cachorro e saiu pela estrada. Pedalaram pelo asfalto até encontrarem um trilho. Marcelo, com empolgação de garoto, ia na frente aproveitando o vento que acariciava-lhe os cabelos e soprava como calção aos seus ouvidos. Durante três dias pode pensar na vida e em tudo que tinha deixado pra trás. Em cada trilha que passavam, descendo ou subindo ladeiras, apreciava a natureza. Todas as vezes que tinha que frear mais forte ou retomar a pedala sentia que ainda tinha muito que viver. Depois de sete dias pedalando, dormindo em pensões abandonadas ou mesmo a beira de estradas decide que era hora de voltar.  Para não perder o tempo da natureza, deixa tudo para trás, menos é claro, sua barra circular, agora mais rodada e macia, pronta para novos desafios.


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