Carta De Um Romano Albino Ao Pai [pingos caindo nos seus devidos iiiis]

de Wesley Peres

Não me reconheço em meu nome, não me reconheço em nome algum, penso enquanto arranco uma casquinha do dedão do pé ressecado. Penso na carta de meu pai. Meu pai me escrever cartas, quando, na verdade, são os filhos que escrevem cartas ao pai, como todo mundo sabe. Vivemos num mundo sem cartas, quase, num mundo de cartografia praticada com tintas pontilhadas, delidas. Arrancar a casquinha do dedão do pé promove o encontro dos meus olhos com uma gota daquilo que me circula. Acendo um cigarro, sentado no pequeno alpendre, o meu corpo cheiro de sol toma consciência de que está vivo. As cartas do meu pai me deixam melancólico.

As cartas do meu pai. Não há beleza na loucura, e o meu pai é um artista sem obra. Aprendeu o alemão para ler os Schrebers. Fala muito sobre os nazistas, que os nazistas eram uma ralé, que o povo goiano é um povo nazistóide (não me perguntem o que ele quer dizer com isso). No mesmo dia lê Proust e um livro sobre termodinâmica para, a seguir, dar uma lida detalhada (caneta marca-texto na mão, risc risc), na lista telefônica, pois, ali, se aprende muitas coisas, ele diz. No dia seguinte, abre os seus cadernos de anotações, onde atualiza os registros do seu negócio mais rentável, a venda de chuva na bolsa de valores.

Tal negócio surgiu um mês antes da morte da minha mãe, da sua-dele-meu-pai mulher. Minha mãe era uma mulher de exatidões. Miúda, magra, maxilar anguloso, pele pálida e cabelos escorridos, andava como um cirurgião apressado, porque tem de entrar agora na sala de operações, e ainda não fumou o seu cigarro e nem vai fumar porque deve entrar agora na sala de operações, contrariado porque onde já se viu a lanchonete do hospital não vende mais cigarros. Minha mãe fumava o tempo todo, não dormia, resolvia todas as coisas, tinha sempre no rosto aquela expressão de tabela periódica. Talvez eu devesse falar de sua morte, agora. Mas tenho um paciente marcado, agora.

Não, não sou cirurgião — já falei com vocês sobre isso?


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