Mal Secreto

de Daniela Mendes

Final da série: não seria trágico se não fosse música

Caiu uma semente da bucha vegetal enquanto ele se sujava com a espuma do sabonete. Na cabeça, o xampu anticaspa deixava o couro de molho enquanto Jardison tentava amolecer suas antilembranças. Aceitar ou não o convite da Paulinha? Seus amigos que ele tanto amava deixava-o macambúzio. A espuma começava a escorrer sorrateiramente, os olhos ardiam, hora de enxaguar e ver o branco percorrer o corpo em direção ao ralo. Sim, sem dramas. Ele vai de jeans, camiseta com poema do Leminski silkado e paletó cheirando a brechó de caridade. Todo limpo escondendo o mal trato de sua toca.

[A caminho do ponto de ônibus escutou a filha da bailarina gritar seu nome. Parou e olhou para trás Lá vinha ela com seu violão nas costas feito uma mochila. Tinha jeitinho de menino moleque com aquele cabelo curto. E era tão linda vestindo os olhos da alegria azul que se harmonizava com qualquer música triste! Cheia de entusiasmo ela lhe convidou para vê-la tocar no Porto de Elis. Jardison agradeceu e seu coração lamentou tão fundo a negativa, que ele mal pôde discernir o sentimento. Apenas sentiu sem muito questionar um espinho lhe rasgar o peito. E vê-la pelas costas o fez temer do jeito que se quebra o último biscoito do pacote para dividir com alguém. Inda mais quando ela, ao deixá-lo para trás, lançou um olhar descrente que seu companheiro de fazer cinza das horas poderia ter um compromisso. A noite, por outro lado, acabava de se iniciar e era veloz. Não dava tempo de explicar para menina que ele não mentia. Jardison realmente tinha um encontro marcado com seu passado. E assim foi terrível mesmo despedir-se dela].

Chegou à festa junto com Gilberto e Sandra. Embora o amigo lhe estendesse um abraço largo, como o Cristo, Sandra, agora sua esposa, desconcertava um olhar de quem viu um fantasma descer de uma ambulância de hospício. Vontade de falar: ora vai mulher, nunca viu um homem descer de um ônibus? Jardison mentiu dizendo que era bom já encontrá-los de pronto porque se esquecera do número do apartamento. Era péssimo, na verdade. Pois Gilberto já desfizera a primeira boa impressão ao lhe inculcar uma angústia antevendo a presença de Graça. Era inocente sua risada? Jardison sentiu-se desde já bombardeado pelo amigo, mas era tarde demais para se arrepender e correr para o show de Adriana.

“…Minha amiga, filha da bailarina…”

Achou que conseguiria ter uma conversa descente pelo menos com o lunático do Glauber, mas este não entendeu e a forma como começou a falar de Nabokov e Freud deixou isto bem claro para Jardison.

Ele lamentava o mal estar que não conseguia deixar de sentir. Tinha lágrimas guardadas porque via naquelas carcaças amadurecidas a alma perdida de sonhadores de outrora e as ruínas dos rostos daqueles que amou um dia. Era algo digno de choro, mas há muito não chorava. Apenas fazia pose de rapaz esforçado entre defuntos com currículo lattes. Ficou parado, calado, quieto, sem poder correr, chorar ou conversar. Observando como aquelas pessoas se contemplavam meio que despistadamente nos copos dourados de uísque. Vontade de subir na mesinha de centro da sala e perguntar: Amigos, cadê vocês? Onde estão? O que era tolice. Pois há muito ele aprendera a massacrar tanto o medo quanto a dor sem nunca precisar de quem o orientasse.

Bastava então. Ele tentaria fugir dali. O plano era fingir que iria buscar algum petisco na cozinha e, assim, escapar, na primeira oportunidade, pela porta de serviço abandonando aquele copo besta de uísque que lhe pesava as mãos. Contudo, encontrou Wally, o que permanecia sempre o mesmo navegador lunático. Abraçaram-se com euforia…

– Como vai?

– Sempre igual, tudo legal…

O amigo lhe ensinou truques de sobrevivência de festinhas de reencontro. Riram-se à beça e assim Jardison resolveu virar o copo e enchê-lo novamente com o dobro. Animou-se, foi mais condescendente com o resto das pessoas até embriagar-se por completo. Wally lhe arrastou para o quarto e mostrou o branco. E era assim o vício: a tentação de ver as coisas alvejadas e sentir a boca se encher de saliva rica em letras, traços e cores.

Mais tarde perdeu-se de Wally, foi encontrado por Graça. Respondeu-lhe sem se importar se parecia cínico que o amor acaba quando passa a ser útil. Entrou na turma dos que dançavam e repetiu um verso de Jim Morrison sem propriedade nenhuma. Caiu sentado despercebido no sofá. Bêbado concluiu que a pior das grades eram as aspas. Sentiu vontade de vomitar, foi ao banheiro. Olhou-se no espelho, tinha rugas e era inundado por sua alma chorosa que não tinha para onde escorrer tanto sentimento. Eles, lá fora, dançavam The Doors estando presos! E seus olhos sujos de vermelho.

Jardison agora estava na sacada do quarto da Paulinha. Podia pular de lá tamanho desejo de voar. Via todo o Rio de Janeiro. A filha da bailarina lhe dizendo que roubava músicas porque as pessoas mais velhas esqueciam-se das canções. Então ela podia apropriar-se delas… Adriana! Adriana! Lembrou-se. Estava comovido. Que todos fossem para o inferno. Fugiu mesmo correndo pela porta da frente. Correu pelas ruas louco, temendo não encontrar Adriana a tempo… Já estava tudo perdido, mas mesmo assim ele criou um verso. Conversava consigo mesmo, as pessoas se assustavam e lhe davam passagem.

Chegou ao Porto de Elis mal podendo falar. Adriana embolava o mirrado cover no bolso da calça. Abriu um sorriso branco ao vê-lo adentrar trôpego no bar.

– Ei Jards! Você…

Ele a interrompeu com gestos e depois pediu um minuto com o indicador. Cinco segundos depois disse para os olhos azuis e arregalados dela:

– Vamos fazer músicas… Eu fiz um verso… Intitulado o mal secreto…

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