Photoshop

de Gerusa Leal

As faculdades do espírito, denominadas analíticas, são, em si mesmas, bem pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. O que sabemos delas, entre outras coisas, é que são sempre, para quem as possui em grau extraordinário, fonte do mais intenso prazer.
Edgar Allan Poe, in Os Crimes da Rua Morgue.

Estacionou o carro e prosseguiu a pé, sem pressa. Tivera que desistir de voltar para casa mais cedo, jantar com uma taça de vinho e se jogar no sofá com um bom livro, como gostava de fazer às sextas-feiras à noite.

Por favor, o edifício Carnaúba?

O sol ainda não havia se posto totalmente, o que deixava tudo sob aquela luminosidade indefinida de fim de tarde. A rua era de casas e prédios de poucos andares, sem calçamento, e dos escassos postes apenas alguns tinham as lâmpadas acesas.

O senhor vai em frente, é o último, na esquina, do lado esquerdo.

De onde estava, já era possível ver o prédio, uma construção de aparência recente, pintura bem conservada, de um azul discreto, janelões por onde enxergava em alguns andares, à medida que se aproximava, a movimentação dos moradores nas salas, alguns nos quartos. Outros apartamentos estavam totalmente às escuras. Em algumas janelas, a luz cambiante denunciava alguém em frente a uma tela de TV. Pelo estado de conservação, o prédio destoava dos arredores, parecendo uma montagem amadora em photoshop.

Um homem passou por ele de bicicleta.  Por um momento só conseguia divisar uma vaga silhueta, os contornos borrados, imagem indefinida. Alguns metros adiante, o ciclista mudou de direção. Desmontou e entrou no prédio pelo portão de pedestres. Estava próximo o suficiente para vê-lo encostar a bicicleta em local próprio, colocar a tranca e se dirigir ao hall de entrada, em direção ao elevador, a mão esquerda no bolso do casaco que usava por cima da camiseta.

Lembrou-se de quando tinha mais ou menos a mesma idade e também gostava de se vestir assim: camiseta, jeans, tênis e um casaco grande jogado por cima de tudo. Olhou ao redor com um certo carinho por aquela rua que o levava de volta a bons tempos.

Para quem passara a juventude num bairro feito aquele, as noites de sexta eram assim: chegar em casa apressado da escola ou do trabalho,  tomar um banho corrido e trocar de roupa por outra limpa mas tão semelhante à anterior que apenas o cheiro de sabonete e o cabelo molhado testemunhavam a chuveirada rápida. Em seguida sair à rua e encontrar os amigos, cada um se sentindo estiloso e original, todos vestidos segundo o padrão do grupo, o que os deixava, para quem via de fora, meio uniformizados. Saíam em bandos, para a pequena farra que encerrava as canseiras da semana, antes de irem encontrar as namoradas, quando não lhes davam o bolo e apareciam no sábado com desculpas esfarrapadas. Glorinha o recebia com ar amuado, falava pouco, e o pouco que falava era para deixá-lo saber dos programas com amigos a que renunciara para ficar em casa esperando que ele chegasse.

Apesar de saber que os tempos eram outros, sempre que caminha por ruas feito aquela, volta a se sentir com vinte anos.

Desde então já trabalhara em casos de todos os tipos em ruas semelhantes. A sensação de segurança e despreocupação dos velhos tempos, que a visão do rapaz de jeans e casaco amplo provocara nele era, sabia, ilusória. Cumprimentou o porteiro, identificou-se, e entrou também no prédio. Hora de juntar mais peças ao novo quebra-cabeças que lhe caíra no colo, perturbando a rotina de suas noites de sexta. Mas o vinho era só a segunda, bem, vá lá, a terceira coisa que lhe proporcionava tamanho aporte de endorfinas.


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