A peste e os e-mails de amor

Leandro Resende

Nada pior do que uma letal doença envolvendo todas as caóticas rotinas que se fazem de modernas. A doença é uma música triste no domingo. Todos ficam em casa na maior parte do tempo. Até quando?

Frases incompletas na televisão, delírio dos apresentadores. São doentes, já estavam antes. Doentes risos, doentes elogios. O auditório assiste. Dentes brancos com sombra amarela. Nos telejornais, só falam de todas as mil cóleras do mundo desde todos os ontens.

As imagens chegam a todas as casas, uma chuva de granizo arrebentando os músculos e ossos de toda aquela estrutura que se jurava pensada e repensada. A cidade é muito frágil. As pessoas não são nada mais que coisas frágeis. Músculos e ossos esticados para andar.

Mariana morava sozinha. Sem ninguém, sem a peste.

Poucos saíam de casa, somente o necessário. De preferência de carro, vidros fechados, luvas e máscaras. E ficar entre os seus, pensava André, exigia mais do que preencher relatórios ou assinar contratos ou entregar o serviço ou bater o ponto na hora certa.

Não tinha ponto nem relatório nem serviço nem contrato. A realidade era outra. Paredes, armários, parentes. Peixe no aquário, jardim por podar, colocar roupa no arame. Olha o cachorro, já falei. Deixa o lixo lá na rua, hoje passa o caminhão?

Mariana ligou:

“André, tudo bem.”

“Oi, Mariana. Não posso falar. Tô em casa, a Marcela tá aqui.”

“Eu sei. Eu sei, mas tô morrendo. Tô mal, a peste…”

“Mariana, eu não posso ir aí. Você sabe. Não posso falar agora. Você sabe. Já fui aí duas vezes quando estava morrendo e, você bem sabe, era pura invenção. Você não estava morrendo. Nenhuma vez você estava morrendo. Entenda. Entenda. A peste vai passar, eu vou me separar, tem os meninos, e vamos viver juntos. Mas…”

Mariana desliga.

O cachorro do vizinho late a tarde toda. Ela fica rasgando cartas de amor. Na verdade, e-mails de amor, porque não mais existem cartas de amor escritas a mão. Há algum tempo ela imprimiu centenas de e-mails e os reescreveu, disfarçando a letra, como se fosse a letra dele. É mais romântico assim. Até para rasgar é melhor.

André senta no sofá e fica emburrado a tarde toda. Olha o peixe, circulando feliz no aquário. Eu disse pra ela que pensasse bem que eu seria um problema e disse que parecia um problema e agora sou um problema. O problema está aqui, no sofá, em frente ao peixe, o aquário. O que o problema pode ou sabe dizer? Nada. Deixa ela morrer lá. Deixa eu morrer aqui. A pesta pode resolver todos estes problemas. A Mariana que se foda. Será que ela não entende, ela nunca teve filhos. Ela nunca teve filhos. Os moleques passando aqui, o tempo todo. Minha cara, minha boca, orelhas. Sou eu, ontem.

O idiota não sabe entender que eu o quero perto de mim mais do que eu quero a mim. Eu não preciso de mim, eu preciso dele. Que febre nojenta.

Ela nunca teve filhos. Minhas orelhas. Ela precisa ter um filho para me entender. Se a peste nos deixar viver, vamos fazer um filho. Mais orelhas minhas correndo na sala. Olhos dela. Boca minha. Pernas dela.

O corpo doí. Febre, febre. Onde será que eu peguei essa porcaria de doença. Eu vou deitar. Amanhã melhoro. Estou com medo. Com frio. Medo.

“Alô. Quem fala?”

“Marcela.”

“O André está?”

“Sim. André, telefone para você.”

“André. Encontramos o corpo da Mariana, a peste. Você a conhece, né?”

Silêncio longo.

“Seu telefone, seu nome. É o único que tinha na agenda dela.”


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