Cólon

Erwin Maack

“Ora, as nossas leis são como teias de aranha: as simples moscas e as pequenas borboletas são apanhadas; os grandes moscardos malfazejos as rompem, ou as atravessam. Semelhantemente não procuramos os grandes ladrões e tiranos; são todos de dura digestão, e nos sufocariam; ora, vós outros, gentis inocentes aqui sereis bem inocentados; pois, o grande diabo vos cantará a missa.” François Rabelais, Gargântua e Pantagruel, vol II, cap. XII.

A garoupa de uma cédula de cem reais guardada no bolso traseiro da calça: este é o meu destino. No verso, uma efígie da república, de olhos vazados e ouvidos moucos, não conversa comigo. Testemunhei poucos fatos nessa vida, não sou muito dada à circulação. Estou no bolso deste homem, que não me tira do lugar de maneira alguma. Saca apenas para me olhar. Demoradamente. São sonhadores e, ao se embaçar, volto ao bolso.

O portador fugiu de Nazaré da Mata. Dos sopapos do pai. Da vida sem vida. Da rigidez e da falta de imaginação. Do evangelho segundo o bispo. Não quer transformar o mundo, apenas conhecê-lo. Viajou para o sul. Após terminar o segundo grau, no colégio estadual, começou a trabalhar em todas as horas de que dispunha no dia.

O auge da sua carreira foi na universidade. Era auxiliar na tesouraria. Conseguiu comprar apartamento, a pagar em muitos anos, com financiamento da Caixa, e se casou. Geraram dois filhos homens. Perdeu o emprego, envolvido sem saber em uma disputa entre os chefes. Foi acusado de participar de um desfalque. Após provar sua inocência, pediu todos os direitos sonegados na época da demissão. O processo se arrasta na justiça, ultrapassou todas as fases, matou todos os monstros, mas não ganhou vidas; ainda não recebeu.

A mulher também o despediu, acusando-o de ser um banana. Fez todo o possível para mantê-la, para viver ao lado dela e deles. Foi impossível, e desistiu. Desempregado, sozinho, conseguiu manter-se na superfície, fazendo bicos, durante cinco anos. Um amigo disse: “Você tem um metro e oitenta e cem quilos, é ideal para trabalhos de segurança”. De fato, foi aprovado e fez o treinamento por duas semanas, e passou a trabalhar oferecendo corpo e semblante para assustar traficantes, cobradores e infelizes de forma geral. O treinamento foi básico. Códigos de rádio usados pela polícia, perguntas e respostas mais frequentes dos clientes, o mais importante: ficar em pé, sem nenhuma expressão no rosto, sem nenhuma resposta fora do manual. Após o curso de tiro, abriu-se a chance de trabalhar em agências bancárias por um salário melhor. Pouco melhor. Recusou.

Ele recebeu uma intimação. O apartamento será leiloado. Foi condenado pela falta de pagamento das despesas do condomínio, durante os meses de desemprego. A dívida é equivalente ao valor da residência. “Não entra na minha cabeça pagar o imóvel em vinte anos e perder tudo em cinco?”, repete a todo instante. Tentou fazer um acordo, conversou com a síndica, com os demais condôminos, fez assembléia. É impossível. “O meu saldo dos salários na Universidade não foi pago até agora. O advogado não consegue resolver a questão – coisas da justiça – nem consegue negociar pagamento parcelado da minha dívida”. Ele também me despediu.

Troquei de calça. Estou em outra, e bem quente. Mas o tempo está fresco, o calor me abafa. Ele está caminhando. Saiu da sua edícula, nos fundos da casa dos tios. Um casal de velhinhos. Ele passa todo o dia debruçado sobre a Bíblia, lendo, relendo, escrevendo; fazendo contas. Contam níqueis para não sair do orçamento. Coisa de velho.

Agora, estou toda molhada. Ele percorre os quilômetros, quatorze, desde seu quarto, para apanhar o filho mais novo, já da mesma altura, com quinze anos, olhos grandes, bem abertos, redondos e pretos. Tomam um ônibus para um parque da cidade. Parque do Povo. Imaginam jogar tênis. Podem jogar um game, quando chegar sua vez na longa fila que se forma. Grátis. Aprendeu a agenda gratuita da cidade. Ouço o filho perguntar se eles têm que sair de casa. Ele desconversa. “Depois falo com sua mãe.” Não fala mais nada.  O game é rápido, ele está pregado. Resolvem visitar a feira de Nossa Senhora da Achiropita. Comida farta. Boa. Barata. Lotado. Gente saindo pelo ladrão. Contentam-se em comer uma foccacia em um boteco de beco. Voltam para casa, felizes e risonhos.

Ao entrar no carro hoje, estremeci ao sentir o peso do seu corpo sobre mim. Apesar de acostumada com o peso, o berro que ele deu após fechar os vidros foi ensurdecedor. Longo, como aqueles que o pai dava ao chamá-lo para o castigo após alguma reclamação da escola ou do vizinho. Estamos levando um amigo do patrão dele; é juiz de Direito. No caminho, ele conta suas histórias. Começou na advocacia tirando pai incestuoso, libidinoso e reincidente da cadeia. “Precisava de dinheiro, faria qualquer coisa para isso, só queria tirar o cara de lá. Hoje, depois de tanto tempo, aprendi a ganhar dinheiro, e não quero mais fazer isso. A advocacia também deve ser ética; aprendi com o exemplo do meu pai. Ele era botequineiro. Vendia fiado para os fregueses para cobrar no dia do pagamento. Sempre que devedor encontrasse algo que dizia não ter consumido, meu velho, resignado, subtraía o contestado, e me dizia: ‘Filho, hoje eu saco os vinte, e não brigo. No outro mês, eu pego trinta de volta.’ Ele foi um cara muito esperto. Aprendi muito com o tribunal do júri. Lá se aprende a improvisar, conquistar as pessoas. Um advogado apontou-me o indicador na frente de todos, acusando-me de ser cúmplice do réu, acusado de homicídio; eu olhei bem para a cara dele, segurei a ponta do dedo em riste e disse: ‘Se você fizer isso de novo, garanto que o nobre colega só usará a mão esquerda de hoje em diante’.  Eu aprendi a frase com o Baretta, no dia anterior, na TV.”

Não há tempo para almoçar. Ele compra um abacate e um pacote de aveia, mistura e come. Ele gosta também de iogurte com milho, batidos em um liquidificador. A vitamina preferida é a de abacate com mamão e leite. Ele, invariavelmente, toma dois litros de leite por dia. Fica diante do computador e vai pesquisar o funcionamento do aparelho digestivo humano para ajudar nas tarefas escolares do filho. Google. Os alimentos desde a ingestão até a evacuação passam por cinco ou seis metros de intestinos. “Aos poucos, o que resta daquilo que outrora era chamado de alimento vai passando por outro esfíncter: o esfíncter íleo-cecal. Atingirá, assim, outro segmento do tubo digestório: o intestino grosso. Neste segmento ocorre uma importante absorção de água e eletrólitos presente em seu conteúdo. O quimo vai, então, adquirindo uma consistência cada vez mais pastosa, e se transformando num bolo fecal. Fortíssimas ondas peristálticas, denominadas ondas de massa, ocorrem eventualmente e são capazes de propelir o bolo fecal, que se solidifica cada vez mais, em direção às porções finais do tubo digestório: os cólons sigmóide e o reto. Encontraremos o reflexo da defecação. O enchimento das porções finais do intestino grosso estimula terminações nervosas presentes em sua parede, através da ‘distenção’ (sic) da mesma. Impulsos nervosos são, então, em intensidade e frequência cada vez maior, dirigidos a um segmento da medula espinhal (sacral) e acabam por desencadear uma importante resposta motora que vai provocar um aumento significativo e intenso nas ondas peristálticas por todo o intestino grosso, ao mesmo tempo em que ocorre um relaxamento no esfíncter interno do ânus. Desta forma ocorre o reflexo da defecação. Se, durante este momento, o esfíncter externo do ânus também estiver relaxado, as fezes serão eliminadas para o exterior do corpo, através do ânus.” Derruba o copo, suja toda a calça e o sapato.

Saiu correndo, está em cima da hora. Recolhe o juiz e o patrão, para levá-los. “Como foi seu almoço?” “Bem, obrigado.” Ambos conversam animadamente, contando dos tempos dos bancos escolares.  Fizeram a mesma faculdade. Têm amigos em comum.  O patrão pergunta: “Será que você conseguirá me tirar desta confusão? Falência é fogo”. “Claro que sim. Não se preocupe mais, agora está comigo. E está resolvido. Pronto. Simples. Farei o seguinte: perguntarei a deus se ele pode transformar o meu canivete em uma espada para que eu possa matar o leão que tenho diante de mim. O leão, claro, perguntará se ele pode fica ainda maior, para me liquidar de um só golpe. Mas eu confio no meu poder de argumentação. E sairei vencedor.“ E se deus não se meter?” “Nesse caso, a minha última fala será a seguinte: ‘Bem, então o senhor pode se sentar nessa pedra, e se afaste, porque verá uma briga das boas, e eu jamais perdi uma delas’.”

São onze horas da noite. Ele carrega a valise para o patrão, deixa sobre a escrivaninha, na biblioteca. Ao lado de um livro aberto. Ele não consegue deixar de observar.  As páginas estão esbranquiçadas, a tinta se gastou. Um parágrafo está escurecido, forma uma faixa escura. Ouve, atrás de si. “É de tanto eu ler e passar o dedo sobre as linhas. Esta faixa não tem mais nenhuma delas, mas eu as sei de cor: A verdade foi propagada a partir da Revolução em França, que decapitou o Rei…” Sinto a palpitação do corpo, tremores, suores, ele acabou perdendo a voz, fala rouco, quase afônico, e conta para o patrão o seu problema, o seu drama inteiro. Da impossibilidade de arranjar um lugar para os filhos e a ex-mulher. Dá todos os detalhes. Informa do leilão. E ouve, após breve pausa: “Infelizmente, não há nada que eu possa fazer. Sinto muito”.

Uma resposta to “Cólon”

  1. Cólon @ Non Liquet Says:

    […] vocês quiserem conhecer uma história bem brasileira, contada por uma nota de cem reais, aqui está a chance. Eu ficarei muito honrado com a leitura. E mais ainda se conseguir prender sua […]

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