De cinema e caracóis

Susana Fuentes

Já reparei que diante do pó de cimento das construções, nos dias frios tapa-se o nariz com o casaco. No calor, quando não se tem casaco, o jeito é proteger-se com um lenço de papel catado às pressas na bolsa, num gesto que empresta à cena certo ar de tragédia. Afinal, é o máximo de rebeldia que podemos demonstrar para tornar evidente o silencioso protesto.  Mais um edifício e enquanto isso, de noite, as calçadas cada vez mais escuras. O progresso vem hipnotizar moradores incautos e embotar seus rebentos. Bem precisamos de lojas, luzes, para passar o tempo mais rápido e gastar mais tempo no trânsito, dentro de automóveis. Alimentando os cérebros com montes de linhas retas, de linhas retas e linhas.

Homenagem silenciosa à colina que perdeu seu lugar: perguntaram a Jeanne Moreau, em sua segunda visita ao Rio. A primeira depois das filmagens de “Joanna Francesa” nos anos 70, que a atriz fez com Cacá Diegues no Brasil.

– Depois de tantos anos sem vir ao Brasil, como você encontrou a cidade? Muito diferente?

– Bom, não está a mesma.  E sem pestanejar, foi direto ao ponto:

– Não há mais aquele caminho calmo ao longo da praia, agora todos esses edifícios altos. Mas não sou nostálgica. O que me encanta aqui, é que tenho o meu amigo, ele continua aqui. Mas os edifícios… é verdade que atrapalham a paisagem.

E sorriu.

Também não sou nostálgica e não vou me queixar. Não é sempre que encontro a paisagem, mas quase sempre encontro os amigos. E esta semana fiz tantas coisas na cidade, vi a exposição das pinturas sobre tela e papel de Anna Letycia, vi o vermelho, os caracóis, nos cubos e nos quadros. Tentamos assim conquistar um mundo particular, que existe apesar do caleidoscópio das luzes dos shoppings da cidade, do barulho de festa nos plays dos edifícios, da impaciência dos carros nas ruas. Um mundo com caracóis sobre tela e papel, um mundo com teatro e livros, um mundo com cinema, flores e arte, um mundo com Jeanne Moreau.

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