Malevich, 1905

Halley Margon V. Jr.

Houve um tempo em que sabíamos.
Costumávamos acreditar
que quando o texto dizia
“Havia um copo d’água sobre a mesa”,
havia de fato uma mesa com um copo d’água sobre ela…

(J.M. Coetzee)

Malevich sentado à mesa segura um copo vazio levemente apoiado sobre o tampo azulado. Sobras de claridade penetram pelas frinchas da janela fechada iluminando espectros – pois foi o que restou, além de uma gigantesca sombra obtusa, ele diz (mudo).

É um espaço austero, como costumam ser as habitações de alguns dos homens daqueles tempos. Espaços de passagem, provisórios, até precários, sem fixidez exceto a da gravidade que a presença deles lhes impunham. Um estranho se aproxima trazido pela mínima réstia de luz, a testa proeminente brilhando no lusco-fusco do ambiente sem iluminação.
Do lado de fora, depois da janela, a primavera russa se aproxima. Devastadora. Quando os olhos conseguem finalmente fixar a imagem através da luz Malevich vê o grande orador se aproximando e imediatamente a memória tomba sobre suas pálpebras arrastando-o através do passado. 1905. O primeiro ensaio. (Doze anos depois, ambos terão alcançado o limite de suas artes para logo iniciar a descida ao negrume do abismo, embora ainda não o saibam.) Sente de novo a presença do irmão (Mieczislav) ao lado, os dois corpos trocando calor, os olhares fixos na figura cuja voz faz vibrar o ar aquecendo a atmosfera. As palavras do homem (pouco mais que um menino!) põem em movimento a imaginação dos que o escutam. Também eles sentem a vitalidade da vibração que elas provocam. Ele, Malevich, tem a mesma idade do orador. Quase a mesma idade, o outro é apenas um ano mais moço. São muito jovens. Inacreditavelmente jovens. Habitavam o mundo havia menos de um quarto de século – mas estavam prontos para anunciar o futuro.

Trinta anos se passaram e o estranho visitante agora está calado, mudo por dentro, embora não o perceba. Esvaziado, embora recuse o fato. Imagina não estar morto ainda, mas sabe que a morte se acerca a passos acelerados. Malevich a vê se aproximando com nitidez assombrosa: um risco grosso ao redor dos corpos, comprimindo-os até o completo desaparecimento. Ela já os alcançou, ele sabe. Porque a vê.

Naquele mesmo ano Malevich será enterrado, solitário, no cemitério de Kiev – sua única exigência, já que os homens devem ser enterrados na mesma porção da Terra na qual vieram ao mundo, regressando ao ponto de partida, dizia, como o traçado do círculo. (Cinco anos depois e será a vez do visitante, assassinado a onze mil quilômetros do seu ponto de origem, expulso da terra cujos limites ajudara a redesenhar.)

Enquanto o visitante se prepara para falar (porque não pode ver que está mudo, se recusa a fazê-lo, é de sua natureza negar o mundo dado, o contorno das coisas encontradas nele), Malevich contempla o abandono do próprio féretro, a solidão retórica do último momento antes de ser devorado pela terra de origem, a redundância, a inutilidade daquela solidão. O outro viera para lhe fazer um apelo. Ele escuta, atento. É impossível não ouvi-lo, o silêncio contundente, e patético, daquela voz que ainda agora teima em apelar, com o poder de uma razão desguarnecida, moribunda, teima em apelar à consciência. À consciência dele, Malevich – Malevich se dá conta.

Que a Revolução não fosse abandonada, muito menos atacada, ele diz a Malevich. Que fora, sim, traída, que seus contornos se esvaíam a olhos vistos, o sangue, o vasto sangue que a abastecera rapidamente se extinguindo, drenado para fora do corpo, o que sobrara gangrenava. Mesmo quando não parecia ser possível reconhecê-la mais naquele corpo (um corpo que insistia em permanecer lá, ao redor deles, crescendo e crescendo e consumindo o ar que respiravam pela última vez), era ainda preciso defendê-la. Como antes ele o fizera, ele e o exército que fundou do nada e que passaram a nominar exército vermelho. (Belo e provisório, belo porque provisório, Malevich argumenta em silêncio.) Malevich, então, a imagina, à cor, uma mancha entranhando a matéria do território. Não importava que a revolução deles agora os devorasse sem piedade. Era ainda a tumultuada obra deles, diz o homem. Moribunda ou não, lá estava ela, garante a Malevich. Era? Ou já de muito seu halo não havia desaparecido? Malevich escuta atentamente a voz muda fantasmática, chegando de tão longe, talvez do além, repercutindo nos desvãos da memória. A mesma voz enérgica de três décadas atrás. Mas só consegue pensar… ver, ele pensa vendo – mesmo que os outros pudessem supor o contrário, os olhos eram ainda o seu instrumento de pensamento, não havia outro, nunca houve… apesar dos eventuais mal-entendidos – Malevich devaneia… vermelho e negro, negro… e o vermelho que o invade (agora como um vírus fatal) enquanto seus olhos vão se fechando no túmulo que o abrigará dali a exíguo tempo, a voz do homem à frente reverberando distante, cada vez mais distante. Apelando à consciência dele, Malevich imagina, ao que deveria ser feito ainda agora quando a morte já os derrotou e eles não são mais que sombras se contorcendo no meio da escuridão.

Nos olhos de Malevich a figura do estranho iluminada por restos de lumens começa a se confundir com a do irmão, Mieczislav, trinta anos antes, exatos trinta anos antes, na mesma Petrogrado onde agora se reencontravam para, finalmente, não se verem nunca mais, desaparecidos/absorvidos pela tela escura, ou branca, da eternidade sem calor.
Lá estávamos os três (novamente), reduzidos a nada, riscos rapidamente se apagando na superfície opaca, irônica.


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