Pornoproust

Lúcia Bettencourt

Elas ficam lá, a manhã inteira, lendo a história de um cara que molhou o biscoito…

Que coisa mais sem graça! Todos eles molham, seja na cerveja ou no chocolate, o biscoito sempre sai molhado e mole. É só isso?

Não, tem mais. Umas senhoras de idade, de todo o respeito, e ficam lá lendo essas coisas de homem sexual…

Homossexual!

Isso. Coisa de viado, mesmo. Ouvi uma delas dizendo que todos eles eram homem sexuais.

Homossexuais!

Isso! Viado, mesmo. Que gostavam de ficar amarrados enquanto os outros batiam neles com chicotes…

Eu, hein! Quem gosta de apanhar é burro!

Gosta nada. Já viu como eles zurram, quando apanham? Quem gosta de apanhar é mulher!

Quem foi que disse?

Disse o quê? Que mulher gosta de apanhar?

Não, que disse essa coisa de chicote?

Ah, foi aquela do Mercedes.

Pô, aquela é uma das mais velhas! Será que ela não tem vergonha?

Nenhuma! Acho que quanto mais velha, mais sem vergonha elas vão ficando… Elas falam de cada coisa! Outro dia estavam falando da tal árvore ginecológica, e nem abaixavam a voz nem nada. Aquela do cabelinho duro de laquê só ficava repetindo que o tronco do Andrada era muito mais forte que o do Alcântara. Eu também não acho que seu Carlos de Alcântara tenha força nenhuma naquele tronquinho dele. Tá tão acabadinho, tadinho. Mas daí a dizer que o de seu Andrada está melhor! Até de cadeira de rodas ele está!

Que é que você tem com isso? Fala do livro de sacanagem!

Uma resposta to “Pornoproust”

  1. HP 53 – um toque pornoproustiano em Malevich mergulhado no fim (não da, mas) de uma história em que um raio se recusa a cair « Diários da Cataluña Says:

    […] Leal, Toque Lúcia Bettencourt, Pornoproust Nereu Afonso, Queria mesmo é que um raio caísse no final da […]

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