Queria mesmo é que um raio caísse no final da história!

Nereu Afonso

Na noite do dia 11 de julho, chovia um chuá na SP-304 rumo ao noroeste do estado. Eu rodava asfalto afora. As cidades grandes ficaram para trás, as médias também. As luzes das usinas eram cada vez mais escassas. Sinal de celular, nem pensar. Só relâmpagos, trovões e eu no volante. Em casa as coisas tinham ficado pra lá de carcomidas. Uma voz elevada durante o jantar, uma ética enviesada no meio da louça e uns cacos de sentimentos fora do ar eram o que guiava nosso desacerto. Qualquer suspiro era motivo para Por que você está bufando assim? No rádio do carro, Roberto Carlos comemorava seu meio século de embuste (eu não conseguia acreditar em uma vírgula das sandices daquela múmia com microfone). Pelo pára-brisa embaçado, o cruzamento da rodovia de duas pistas, alaranjado pela iluminação dos poucos postes, era um borrão úmido de paralelas, gotículas e perpendiculares estampadas no vidro. Difuso desencaixe. Tudo, infelizmente, muito familiar. Em casa as coisas tinham ficado pra lá de carcomidas. – Você não tem clareza, não comparece nem desaparece. – E sua clareza é postiça. – E a sua verdade, movediça. – Mas pelo menos tenho uma verdade. – Não, você só tem retórica! – Pfff… – Por que você está bufando assim? – Por nada! – Onde você vai com essa chuva? – Torcer para que um raio caia na minha cabeça! … Mas o dia 11 já era quase dia 12, a chuva cessava, as luzes rebrilhavam, o celular funcionava, nenhum raio caiu na minha cabeça e o Rei cantava Vou telefonar dizendo que estou quase morrendo de saudades de você…

Uma resposta to “Queria mesmo é que um raio caísse no final da história!”

  1. HP 53 – um toque pornoproustiano em Malevich mergulhado no fim, não dA, mas, de Uma história em que um raio se recusa a cair « Diários da Cataluña Says:

    […] Leal, Toque Lúcia Bettencourt, Pornoproust Nereu Afonso, Queria mesmo é que um raio caísse no final da […]

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