Toque

Gerusa Leal

A verdade é sempre estranha: mais estranha que a ficção.
Lord Byron

A verdade? A verdade é que Valentina era engraçada. Ela me fazia rir quando se chegava, completamente bêbada, com aquela voz de surdina, os olhos de mormaço, aquele vestido básico, sem brincos, sem adereços, totalmente à vontade, os pés descalços, lábios feitos para sorrir, e me pedia, toda lânguida: toque.
E por alguns momentos, em silêncio, a respiração suspensa, se entregava ao improviso dos meus dedos se alternando nas chaves, dos lábios se amoldando ao bocal. Mas logo, arfante, pedia vibratos, eu manipulava o diafragma, recorria às cordas vocais, estremecia o instrumento com as mãos.
Me empolgava e logo, aumentando a contração dos lábios e a velocidade dos dedos nas chaves, escorregava rapidamente por todas as notas, às vezes suavemente, às vezes com ímpeto, quase em transe. Ela então cantarolava, pegando o ritmo, com aquela voz tão rouca, cantarolava o Bolero de Ravel, que eu executava ao trompete, exagerando nos agudos. Às vezes também nos graves.
Sim, Valentina me fazia rir.
Há quanto tempo eu a conhecia? Há pouco mais de três meses. Ela era tão doce me chamando de Marrrrrcos, com aquele sotaque em frullattos que lembravam o motor do Pólo ronronando quando dava a partida, ou acelerava macio, sem pesar o pé. Diferente, bem diferente do ronco, quase rugido que emitia quando eu, trafegando na contramão, em alta velocidade, tentava chegar com ela ao hospital.
O que aconteceu? Nós passamos a noite juntos no meu apartamento. Bebendo. Bebendo muito. Ela dizia que não tinha medo de nada. De nada. E conseguia me convencer. Dizia que queria ser soldado, pegou uma folha de papel na impressora, dobrou aqui e ali, colocou na cabeça o chapéu improvisado, a vassoura segura na mão direita, o cabo repousado no ombro, começou, sorrindo, a marchar pela sala. Virou-se pra mim e disse: toque.
Eu toquei marcial e solenemente. Solene e sorridente, ela marchava em dó e em lá, em dó e em lá.
Depois começou a fuçar pelos móveis, ela sempre fazia isso, a curiosidade de um gato. Ou de uma menina. Fui ao banheiro, quando voltei estava sentada no chão, séria, o olhar perdido não sei onde. Sentei junto, recostou a cabeça em meu joelho. Fiquei olhando a beleza do rosto iluminado só de um lado, por causa da posição.
Ela acariciava o trompete, distante, mergulhada em devaneios como fazia quando parava de sorrir. Voltou, como voltava, de repente, desembrulhou o volume no colo, ficou olhando para o 38, acariciando. Me fitando direto nos olhos, recostou-se no sofá, abriu um sorriso irresistível e me desafiou: toque.
Não havia alternativa. Aqueles olhos negros enormes, parados, me pediam. O instrumento estridulava em si, em ré, soluçava, gritava, desesperava. Perdi um pouco o fôlego e quando retomei só conseguia emitir sombrios fás sustenidos.
Foi ela quem pediu, na verdade ordenou, com aquele sorriso e aquele olhar, como sempre fazia. Foi suicídio, seu delegado. Essa é a verdade.

Uma resposta to “Toque”

  1. Diários da Cataluña Says:

    […] Gerusa Leal, Toque Lúcia Bettencourt, Pornoproust Nereu Afonso, Queria mesmo é que um raio caísse no final da história! […]

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