HQ do tempo estacionário

Leandro Resende

As pessoas estão quietas, na cama.
Madrugada.
Sombras, ventos e papéis. Folhas.
Asfalto.
Vistas do alto.
A janela aberta, luz acesa. Um rosto.
O mundo sem urgência, sem taquicardia.
Sem suores.
Passa uma moto.
Entregador de jornal.
Uma urgência particular naquele instante fechado em silêncios e semi-sons, em notas repetidas de uma canção noturna, úmida.
No quarto, o rosto olha a rua. Um luz leve desce do poste até bater no colo daquele asfalto negro e frio e sujo. E também delgado.
Um edema externo, vários cortes internos. A cirurgia o rasgou como se os médicos picotassem um mero papel, um tecido velho de couro e pêlo. Linhas grosseiras une pedaços de sua pele (nos dois braços).
Lembra minutos antes da cirurgia. Branco da luz no rosto, vozes, a seringa, o sono, imagens estacionando em sua memória, o som congelado. As cores vão se esbranquiçando e se torna um silêncio leitoso, uma branca n uvem de silêncio.
Se voltei, pensa, estou vivo.
Lembra agora dos minutos bem anteriores à cirurgia, antes daquele barulho seco do atropelamento (cinco, quatro, três, dois, um, zero) ou mesmo de decidir buscar o pão, o leite e a manteiga no meio da tarde (o que nunca fazia e imagina que o fez pela ansiedade, assim como fumou e bebeu naquela semana pela mesma angustia).
Olha de novo a vida estacionada na penumbra daquela rua, o vento varrendo pedaços do dia anterior: folhas, papéis, sons pesados, frases não ditas, gestos inacabados, atropelamentos. Nada ficará riscado no asfalto ou nos muros no dia seguinte. Nada ficará, nada existiu.
Apalpa o edema, ainda alto e roxo. Sente uma dor de agulha afundando lentamente a carne. Apalpa um anexo ou uma nova ponta naquele osso, uma nova curva no rosto.
Era um momento importante na sua vida. A ansiedade lhe vazou com o sangue no asfalto (pois Andréia já lhe perdoara na primeira visita ao hospital). Sorria sozinho. O acidente, pensa, lhe veio em boa hora. A dor na alma que lhe atingia antes de ontens (acidente de ontem ou anteontem, perdeu a noção de datas) poderia lhe matar. Um leve sorriso ainda permanecia.
A dor física, o edema. Vão passar.
Mas talvez não se esqueça da calçada, dos minutos parados encostados no muro, dos segundos que tomou sua decisão, e da contagem regressiva (cinco), de antes de ter se jogado propositalmente (quatro) na primeira moto que surgia. (três).
(dois).

(um).
(zero).


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