A costura dos braços no sono

Dheyne de Souza

Eu procurei os teus braços enquanto o sono cobria minha ira, aos montes, escalei as esperas detidas em pelos e ritos, o teu corpo era líquido qual chuva numa telha longínqua, e enquanto rasgava a memória, sua face caía perdida, só os teus braços detinham a neblina desse sonho chuvoso. E eu sabia que estava dormindo, eu sabia por que nos havíamos deixado e era por isso que não havia gritos, não havia dor e nem uma saudade. E nesse emaranhado de dedos entrelaçava sua vida, giramos as nossas escórias, um no outro uma camada de músicas, eram aqueles discos antigos, de quando sequer nos sabíamos, e os teus braços me apertavam tanto que era um amor que eu nunca saberia e em nenhum momento dessa noite desacordada eu disse o quanto as paredes são frias, o quanto o silêncio me apetece e o quanto eu não te queria, não joguei pedras, não arranhei arames farpados, não segurei minha alma no colo entre cães vigiando a verdade, meu corpo era quase os teus braços descalços, não fosse o meu nu a cobri-los. E eu ainda não soube exato quando foi que despertei enquanto o teu braço costurava meu corpo no dia. E eu ainda não soube se sonhei ou se disse, mas me parece que minha voz não conhecia som e nessa necessidade enorme e com tanta imagem detida a sensação que tive era que meu verbo era água e teus braços, peixes nessa língua. Eu ainda não soube se estava com ouvidos nessa noite em que eu tive certeza e verdade, nem se minha boca saiu dessa cadeia de palavras cerzidas que vigiamos com absoluto segredo. Só hoje pela manhã é que soube, desse não saber em que tanto nos trancamos, que meus olhos ainda pendiam dos prédios dessa cidade que não disse embora.


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