Acordado dentro do corpo

Wesley Peres

Mas você sabe que você está numa cama. Você sabe que está numa cama e que você sou eu. Que fique bem claro, o lençol é verde-oliva, e você não está no exército, e você não faz idéia de como você sabe que o lençol é verde-oliva. Talvez seu corpo seja o verde-oliva. Você sente a dormência do corpo, há uma espécie de ponto de abismo — mínima e única conexão entre você e o seu corpo. Essa conexão irriga e molha a coisa você com sensações dormentes, notícias do seu mundo-corpo. Você, inteiro, no máximo, é um mundo-ponte. Não é morte, não exatamente. Mas você sente, e chama isso de dormência, você sente o seu dedo mindinho em processo de falecimento. O seu dedo mindinho como fonte irradiadora de um falecimento que abraça o seu corpo por dentro e por inteiro, e esse falecimento não tem o gostoso das sensações de adormecimento, saltando de um quando para outro, de dia ou de noite, adormecimento morno e nutritivo de quando resolvemos fechar as persianas de todos os aparelhos perceptivos. Há possibilidades. Que seja um sonho é sempre uma possibilidade, ainda que, como é o caso, você some mentalmente 2+2 e o número 4 insista em constituir-se como única resposta possível. Você pode estar num livro do Beckett, mas você nunca leu um livro do Beckett, apenas você sabe o nome Samuel Beckett e que esse é o nome de um homem que escreveu um livro chamado O Inominável. Mas você não agüenta inominações, assim como não suportaria viver numa casa sem mobílias, assim como você adora mulheres com muita maquiagem e muito perfume, ora ora, mulheres, maquiagem e perfume: alguma rugosidade, enfim, colore, agora, o que você chama de dormência. O mais provável, e isso está relativamente claro para você, o mais provável é que você esteja em coma, que se você estivesse morto, seria o caso de uma boa notícia, pois, então, contrariando todas as suas expectativas, a morte não seria o abandono, em você, da completude de sua (dela morte) noite de lisuras.


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