Cabras da peste

Erwin Maack

Devo acrescentar que os cidadãos fugiam uns dos outros

e que ninguém se preocupava com os vizinhos?

As visitas entre parentes, quando aconteciam, eram raras e feitas de longe.

O desastre pusera tanto horror no coração dos homens e das mulheres

que o irmão abandonava o irmão, o tio o sobrinho, a irmã ao irmão,

muitas vezes mesmo a mulher o marido.

E até – o que é ainda mais forte e mais e quase inacreditável

– os pais e as mães evitavam ir ver e auxiliar os filhos,

como se já não lhes pertencessem.

Giovanni Bocaccio,

Decameron,

Primeira Jornada

Estamos em uma quadra de futebol de salão de grama sintética, preparados para a final de um campeonato de veteranos. Os promotores pretendem vender o espaço das placas laterais. O time do patrocinador é finalista. Transmissão pela tevê. O vestiário é pequeno, sem ventilação, com dois chuveiros de água quase quente, piso vermelhão, paredes pintadas de verde, com tinta brilhante e acrílica à meia altura, janelas basculantes de ferro com três pequenas bandeiras de vidro canelado, colocadas próximas ao teto. Três bancos de madeira em desordem, toalhas jogadas ali e aqui. Estou encostado no batente ouvindo os comentários do treinador, o queixo no cabo. Sou chamado de Vassoura do Mário Américo. Sou massagista, roupeiro e macaco gordo.

Eles são cinco jogadores e um goleiro. O cheiro do lugar se torna enjoativo pela mistura de perfumes fortes. Os sacos de roupa estão dependurados nos ganchos. Conversam até a chegada do treinador, que abre violenta e repentinamente a porta:

– Vamos lá, minha gente?

Biriguda é o mais velho, organizador do time, jogou em quase todos os clubes do Rio, depois de São Paulo, e então saiu pelo Brasil afora. A única oportunidade no exterior foi um fracasso. Não havia feijão, nem o roxinho, por lá, muito menos mandioca. Conseguia comprar pinga, pelo preço de uísque estrangeiro. Carnaval? Aquela tristeza de máscaras pelas ruas vista pela tevê. Quando voltou, caiu de boca. Seu pai tinha algumas bancas de jogo do bicho. Malandrão melancólico e fumante, agora vendedor de automóveis. Guarda uma pasta molambenta lotada de recortes. Ninguém quer saber daquilo. Viúvo desde cedo, aparenta mais idade. Cara roxa. Tem obsessão por túmulo e pela cunhada.

Pitbull, dianteiro, metade careca, metade máquina zero, testosterona de sobra. Tem orgulho de não saber de nada, apenas dançar (jogar bola), transar e curtir. Apetite insaciável, começou aos doze fazendo as primas. Foi casado com uma bailarina de tevê durante um tempo; três filhas. Ele foi acusado de maltratá-las, física, moral e sexualmente. Odeia treinos. Odiava a mulher marionetando na telinha. Dançavam a sós, com a vontade do corpo como coreografia durante horas, até tombarem exaustos. Distração predileta: afugentar putas e travecos ao exibir o tamanho do trabuco.  Posou nu. Investiu seu dinheiro em uma empresa que dá suporte audiovisual a reuniões de negócios, escolas de samba e conjuntos musicais.

Pachola é do interior de São Paulo, investiu tudo na religião construindo templos, é pastor. Jogou na Itália, ouvia e recriminava as piadas sujas contadas pelo pai de um português (Bocage?!), descobriu que ele viveu lá. No primeiro treino, apareceu de chinelo de dedo, calção e camiseta. Ao deixar o campo, voltou ao vestiário e os encontrou no mural, ofertados em leilão por um euro. A italianada tirou o maior sarro da cara dele. A mulher explicou: use terno e gravata. Evitou comprar um leitor de DVD’s: não sabia se funcionaria no Brasil. Trabalha em tempo integral na pregação da mensagem de Jesus, atua como bispo e faz a conferência das oferendas.

Jack Jone. Sertanejo do interior do Maranhão, rijo, criado por pais adotivos, gosta de sexo, nas mais variadas formas, posições, momentos e posturas. Foi amante do seu primeiro treinador. No último campeonato conquistado, deu seis – informou o jornal – em uma danceteria, só pra comemorar. Gosta de concentração, a sua melhor diversão é aquietar o ânimo dos colegas. Descoberto pela imprensa, saiu do armário. Aprendeu a velar o resultado do antidoping. Protegido de Oxumaré, tem o corpo fechado. Veladamente, é ignorado ou ridicularizado.

Braúna. Zagueiro de origem, parece vestido pela noite. É olhado de esguelha por ser leitor apaixonado. Os títulos dos livros que lê são misteriosos; a ninguém interessa saber.  Não gosta de totó, dominó, baralho ou papo-furado.  É alto, um cubo, dois metros de altura, largura ou profundidade. Gosta de tocar piano, “a sua mão cobre um intervalo de treze”, ele me disse. Seu empresário e ex-patrão cuida dos negócios, investiu tudo em um hotel de seis estrelas, na Serra.  Soube hoje que os sócios estrangeiros quebraram.

Negocinho é filho de ex-jogador quase campeão mundial. Convocado, jogou duas vezes pela seleção. Contratado pelos árabes, ficou o primeiro ano sem saber quanto ganharia, foi aconselhado a não falar do assunto com o príncipe e se deu bem, muito bem; se livrou de ser expulso do país, após a esposa causar um tumulto ao nadar vestida de biquíni em uma praia. Não tem o tamanho esperado para o pé-de-mesa de um baixinho. Casado com uma única mulher e sua porta-voz em reuniões de negócios, duas filhas que adoram tirar fotos ousadas (mesmo as de três por quatro). Vivem dos aluguéis, trabalha como preparador físico.

Buri Uelton (‘Seo’ Cincoenta) é o treinador. O apelido é sinônimo de perneta, já que cem equivale a duas pernas. Duro, sorriso raro, violento na palavra. Se atleta não compreende o que ele fala, ou não cumpre o exigido é deixado na reserva. Detesta cara feia ou insubordinação. Nunca jogou futebol. Fez diversos cursos de treinador aqui e no exterior. Treinou muitos times, só um destaque: como treinador da seleção do Maluchistão. É técnico e conhecedor, mas sem prática. Professor de educação física, paralítico de uma perna, que puxa muito ao andar; tenta disfarçar para que ninguém perceba. Não se sabe nada da sua vida pessoal, é muito reservado. Sabe tratar os dirigentes, enfrenta-os, assim como os jornalistas.  Fala sem dizer nada por até cinquenta minutos. Negocinho já cronometrou, é o recorde.

“Meus caros hoje é a final. Sei que não estamos preparados, sei também da falta de treinamento. O campeão é o que tiver mais rabo. É um detalhe que definirá. A nossa carreira é curta. Quem ganhou, ganhou. Quem perdeu, perdeu. Dez anos. Ninguém fará mais nada. Apenas saibam que hoje é o final de uma convivência entre os ratos. Exigir que eles gostem de nós é uma bobagem. Somos uma espécie de empesteados, rejeitados, apenas servimos de escada. Vivemos com medo. Da palavra do outro. Da ameaça. Da cadeia. Do contrato. Da identidade. A ponto de tremer, do coração querer pular pela boca. A boca seca, o suor abundante. A época é de peste, de indiferença. Da desconfiança. Da cobiça e do negócio. Os nossos conhecidos nos esquecerão. A nossa terra é devastada. Percam o medo hoje. Ao menos hoje. Vocês serão lembrados por esta vitória. As ruas estão cheias de desesperados, de cadáveres queimados dentro de pneus. De filhos matando os pais. De pais comendo as filhas. (“ Epa! Falei demais.”) De mortos de fome. De gente. Deem graças por terem sobrevivido. Encarem seus adversários nos olhos, partam para o tudo ou nada. Quero que vocês tenham vergonha na cara, busquem a vitória a qualquer preço, quebrem os caras se necessário, caso contrário é melhor se enterrar. O pó é o destino dos que não têm o que comer. Ninguém imaginava que poderíamos exigir prestação de contas. Pois é, temos o nosso momento. Hoje. Nunca mais. Saiam para a vitória. É possível”

Um olhar furioso e um tremor percorreram a sala. Eu mesmo fiquei entusiasmado. O homem fala bonito, gesticula, se transforma. O jogo terminou. Ganhamos por quatro a três, e saímos de três derrotas parciais para conseguir o resultado positivo. O cara não é tão ruim assim. Agora: churrasco e pagode.

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