Crônica de enfermaria

Nereu Afonso

Foi num enferrujado e abarrotado ônibus que cortava os altiplanos da Bolívia que ele aprendeu a balbuciar a única frase que conhece até hoje em quéchua: Mana Kanchu kolqe. A frase significa “não tenho dinheiro” e na ocasião ele achava que lhe serviria a barganhar os preços nas hospedarias e mercados andinos por onde deambulava. Ingenuidade, arrogância besta de turista tosco!
O fato é que, quinze anos depois, essa mesma frase despencou de sua memória e se tornou o nó em torno do qual giraria sua relação de palhaço de hospital com um menino boliviano internado semanas e semanas em uma enfermaria de São Paulo.
Ele, o palhaço, chegou aos poucos. Ele, o menino, observava de longe, sem muitas reações aparentes. Diante disso, o palhaço poderia ter abreviado a visita – “olha, na quarta-feira eu volto, tá?” -, mas não, já na primeira “consulta”, sabe-se lá porque cargas d’água, sem que ninguém lhe pedisse nada, soltou um Mana Kanchu kolqe, assim, meio cochichado. Não deu outra. Curiosidade no ar. Um fiapo de conexão surgiu.
Dessas suas primeiras saudações em quéchua mal pronunciado, aos cantos da floresta arranhados pelo menino, passando pela paródias de coreografia que dançaram juntos, eram lhamas, cordilheiras, olhos puxados, a própria Cochabamba se instalando na pediatria e, aos poucos, o garoto alargando as comissuras do sorriso. Mas gargalhada de há há há geral, só depois. Mas aconteceu. Aconteceu num outro dia, em reação a uma trapalhada imensa, uma gag mal executada que, sem querer, levou a bandeja (vazia, ufa!) do almoço pelos ares.
E nesse espírito aconteceram as outras visitas. Quase um mês inteiro de encontros, de cantorias corredor afora, de blábláblá nutritivo, de gags, cenas, jogos, pulverizados por um sorriso aqui, por uma preocupação ali e por esperança em toda parte.
Até que chegou o dia da alta.
No corredor, o menino chamava o palhaço: Ei, Mana Kanchu kolqe (ali ele nunca foi chamado de palhaço ou coisa do gênero, ali era “Mana Kanchu kolqe”, a frase que virou nome).
Pois não, disse.
Meu amigo Mana Kanchu kolqe, estou indo embora hoje.
Ah, então vou fazer uma música para você lembrar e cantar a tarde inteira, disse. E fez.
Em resposta, o menino lhe disse: A música até que é bonitinha, mas vou lembrar de você a vida inteira, tudo bem?
Glup, o palhaço engasgou.
Não se sabe se vai lembrar mesmo, é provável que sim. É provável que o palhaço também se lembre do garoto. Quem garante o que pipocará no vão do futuro? Ele jamais imaginaria que a frase que não lhe serviu pra nada no altiplano boliviano lhe seria tão útil, quinze anos depois, num quarto de hospital de São Paulo.
Não sabia que depois do tchau, depois de fechar a porta do quarto do menino pela última vez, caminharia em silêncio, até um cantinho reservado, para discretamente enxugar a comoção dos olhos. Não sabia de nada disso. E tudo bem.


%d blogueiros gostam disto: