Não aconteceu muita coisa no primeiro assalto

André de Leones

Pervez nasceu no Paquistão. Foi para o Brasil ali pelo meio da década de oitenta, no final do século passado. Parece que faz um tempão, e talvez faça mesmo, dependendo de como você encara essas coisas. Tinha dezenove anos de idade. Não sei como foi parar em Brasília. Tirando os políticos, eu nunca sei como é que as pessoas vão parar em Brasília.

Eu tomei conhecimento de Pervez uns dez anos depois que ele chegou à cidade. E não é que eu tenha, de fato, conhecido o sujeito. A gente não foi apresentado, nunca conversou fiado ou dividiu uma mesa de boteco, nada disso. Ele acabaria se tornando um boxeador conhecido no DF e no entorno, pelo menos entre os assíduos naquelas lutas meio clandestinas como eu. Nunca ia virar profissional, mas nenhum daqueles caras ia virar profissional. Eram amadores ou, no máximo, semiprofissionais, se é que existe uma coisa dessas. Todos tinham outras profissões e, na maior parte dos casos, estavam velhos demais para começar a levar aquele negócio muito a sério. Não tinham patrocinadores, dieta equilibrada e motivação para chegar a lugar nenhum. Queriam apenas uns trocados.

A primeira vez que vi Pervez lutar foi inesquecível, e não só por causa da luta em si. Foi numa sexta-feira à noite, no inverno mais quente que tive o desprazer de testemunhar em toda a minha vida. Na terça-feira daquela semana, meu pai tinha atropelado uma família inteira que caminhava pelo acostamento da BR-060. Preso em flagrante. Nem tentou fugir. Pai, mãe, uma filha de doze anos e a avó. Quatro mortos, três deles no momento do impacto ou logo em seguida. A avó ainda foi levada para o hospital e morreu dois dias depois. No momento em que foi algemado, meu pai estava bêbado e sorridente. Pelo menos foi isso que saiu nos jornais: bêbado e sorridente.

Eu não queria pensar no que o meu pai tinha feito e no que aconteceria com ele. Naquela sexta, cheguei um pouco tarde da faculdade, já passava das duas, e dei com o apartamento vazio. Minha mãe tinha saído, e então eu me lembrei: era dia de visitas. Almocei sozinho e depois cochilei na frente da televisão ligada. Eu gostava de colocar em um desses canais de notícias, tirar o som e me deixar levar pelas imagens. Eram sempre muito parecidas, as mesmas coisas todos os dias, e eu não demorava muito para apagar. Acordei ali pelas cinco, tomei um banho e fui ver as lutas.

Elas iam acontecer em uma tenda improvisada, em Sobradinho. À distância, o troço parecia um circo decadente, desses que aparecem e desaparecem em cidades do interior. Desci do ônibus e atravessei um terreno baldio que parecia não ter fim e na minha cabeça só havia espaço para leões caindo de velhos e palhaços bêbados que mal conseguiam se manter em pé. O ingresso custava cinco reais e, para ser bem franco, nunca ficou claro se a coisa era legal ou não. Sei que os dois organizadores eram uns sujeitos que mais pareciam gigolôs, usavam pulseiras e correntes de ouro e óculos escuros grandes demais, e a polícia nunca aparecia para incomodar ou, sei lá, zelar pela segurança. Eu tinha a impressão de que os organizadores não cheiravam muito bem, mas nunca cheguei perto deles para saber. Sei que os lugares onde as lutas aconteciam, ginásios esportivos detonados ou tendas improvisadas como aquela, nunca cheiravam muito bem. Até onde eu sabia, qualquer um podia lutar, desde que tivesse um par de luvas de boxe, não importava em que estado de conservação, e mais de oitenta quilos. Eles divulgavam os eventos por meio de folhetos porcamente impressos, pregados nos pontos de ônibus e nas portas dos banheiros da Rodoviária do Plano Piloto. Em geral, as lutas aconteciam uma vez por mês. Naquele junho asqueroso de tão quente, haveria dois finais de semana seguidos com lutas.

Quatro lutas estavam programadas. A última delas seria Pervez contra um policial militar de Taguatinga conhecido como O Tronco. Ambos invictos, dizia o cartaz. Depois, fiquei sabendo que Pervez nunca tinha lutado antes. Não em Brasília, pelo menos.

Assisti às preliminares com desinteresse. Nenhuma delas foi agitada ou ao menos sangrenta. Homens com excesso de peso e desprovidos de agilidade, buscando o clinch a todo momento. As lutas foram truncadas e se arrastaram, sonolentas, por vários rounds. Não foram poucas as vezes que cogitei ir embora, mas a lembrança do apartamento vazio, exceto por minha mãe, inconsolável, estirada na cama ou sentada à mesa da cozinha diante de uma xícara de café, era o bastante para que eu não me mexesse. Fiquei ali quieto, ouvindo o raspar dos calçados dos lutadores no ringue improvisado, de papelão, e o som dos socos descuidados, a respiração cada vez mais pesada, um ou outro grito da plateia.

Pelo que eu fiquei sabendo depois, conversando com um vendedor de pipoca, um sujeito simpático que devia ter uns oitenta anos de idade e comparecia a todos os eventos empurrando o carrinho enferrujado, Pervez tinha um ferro-velho em Ceilândia. No dia em que procurou os organizadores dizendo que queria lutar, não deram a ele nenhum apelido. É possível que achassem o nome dele suficientemente estranho ou ameaçador. Tinha os ombros muito largos, como os de um nadador profissional, e os cabelos bem curtos, parecendo os de um recruta. Os olhos azuis, herança da mãe (disse o pipoqueiro) alemã, pareciam ter sido roubados de outra pessoa. Eram dois objetos invasivos, brilhando no meio da pele escura. Ele era baixo e tinha as pernas finas.

O corpo d’O Tronco era proporcionalmente sólido, até mesmo quadrado. Era um negro muito alto, com umas mãos enormes. Não tinha pelos no peito, nas costas ou mesmo nas pernas. A cabeça raspada brilhava. Era uns quinze centímetros mais alto do que Pervez. Eu já tinha visto algumas lutas dele. O tipo de boxeador duro, sem a menor ginga, sempre buscando resolver a luta o mais rápido possível com um desses socos de briga de rua, desengonçados e, dependendo do caso, meio desesperados. Ele batia como se não visse o adversário, como se estivesse no meio de uma briga generalizada em um boteco lotado de bêbados e ele próprio fosse o mais bêbado de todos. O Tronco lutava feio.

Não aconteceu muita coisa no primeiro assalto. Pervez ficou girando ao redor d’O Tronco, tentando, aqui e ali, encaixar alguns jabs. Ele sabia dançar. O Tronco se defendia, permanecendo no meio do ringue. Pensei que a luta seria tão arrastada quanto as anteriores.

No entanto, logo no começo do segundo round, O Tronco empurrou Pervez para as cordas e acertou dois golpes em suas costelas. Pervez assimilou como pôde os socos e tentou se movimentar, mas aquela presença enorme diante dele não permitiu que saísse dali e continuou a castigá-lo com uma sequência de diretos bem no meio do corpo. Parecia que tudo se encaminhava rapidamente para o nocaute quando, não sei como, Pervez, aproveitando uma brecha, acertou uma direita no fígado e em seguida um gancho fenomenal de esquerda no queixo d’O Tronco, que deu alguns passos para trás enquanto Pervez meio que encaixava alguns socos, todos no rosto, mas nenhum assim em cheio. Então, no meio do ringue, Pervez conseguiu acertar um direto no olho esquerdo d’O Tronco, que caiu sentado, sangue escorrendo pelo nariz e pelo supercílio, e não levantou mais.

Fui embora pensando ter visto uma das melhores lutas da minha vida. Assim que entrei em casa, vi minha mãe sentada no sofá. Minha avó estava com ela, as duas com cara de choro.

“Onde é que você estava?”, minha mãe perguntou.

“Saí um pouco. Não queria ficar aqui sozinho.”

Sentei-me em uma poltrona, pensando que talvez ela quisesse me contar alguma coisa sobre a visita. Não. Ela ficou calada. Tive a impressão de ter interrompido alguma conversa muito séria entre elas, algo que não me interessava ou que eu talvez não devesse saber. Mesmo assim, continuei ali. Minha avó brincava com a pulseira do relógio, presente que o filho agora preso tinha trazido de uma viagem à Suíça. Elas estavam sentadas no mesmo sofá, muito próximas uma da outra. Eu as imaginei cochichando antes de eu chegar, como se não estivessem sozinhas no apartamento. A diferença é que, na minha imaginação, elas riam de alguma coisa e se divertiam feito duas coleguinhas de escola no recreio.

“Você almoçou?”

Não respondi. Em vez disso, perguntei a ela onde estava o nosso carro. Até hoje não sei por que perguntei isso. Simplesmente me ocorreu e eu soltei. Ela respirou fundo e disse, abaixando a cabeça, que o carro estava apreendido e eu sabia disso. Senti uma vontade enorme de ir até o carro, não importando onde ele estivesse apreendido, e disse isso para elas. Minha avó e minha mãe se entreolharam, intrigadas, e depois perguntaram quase que ao mesmo tempo:

“Por que fazer uma coisa dessas?”

“O que você quer com o carro?”

Eu também respirei fundo e abaixei a cabeça antes de responder:

“Não sei. Lavar, eu acho.”

Depois, pedi licença, fui para o quarto e me deitei na cama sem acender a luz, descalçar os sapatos ou trocar de roupa. Fiquei pensando na luta. Ainda conseguia ouvir o estrondo que foi o corpo d’O Tronco atingindo o chão. Pervez se afastou e aguardou a contagem. Quando o juiz deu a vitória, ele não comemorou.


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