Os cães

Gerusa Leal

A criança apertada entre os braços, a mulher atravessa o bairro desolado, o nariz enfiado por baixo da manta que cobria a cabeça do menino recostada em seu ombro, para esconder o rosto. Sabe que foi loucura, queria apertar o passo mas anda quase sem respirar, espreitando a matilha que invadia as ruas desertas. Não devia, por que então?, foi bobagem. Não, não pode ficar com a criança. Também nunca vai poder devolver.

O menino olhou para ela. E sorriu. E estendeu os bracinhos em sua direção. Ninguém prestou atenção quando o pegou no colo e saiu andando. Devagar.

Devagar como agora, para não atiçar os cães. Pensa em jogar uma pedra mas não havia pedras na rua, além do mais se acertasse mesmo na cabeça de um e o matasse aí sim estaria perdida – quem mata um cão deve a alma a São Lázaro e será castigado. Ela sentia que seria castigada, de um jeito ou de outro. Nem sabia o nome do pequeno – por que fizera aquilo? O menino começa a chorar, empurra seu peito com as mãozinhas, talvez seja só frio, ajeitou a manta, ele esperneia, apertou ainda mais forte, sentiu o líquido quente empapando seu corpo, precisava chegar em casa, lavar a criança, trocar a roupa urinada, dar-lhe algo que comer, improvisar um lugar para ele dormir, mas não pode andar mais depressa, os cães. Os cães imundos, cães pretos de olhos amarelos – de onde surgiam? – multiplicavam-se e espalhavam-se por todos os lados, seus braços doem de carregar o menino, coloca a criança no chão, andam de mãos dadas – passaria por seu filho? -, anoitece. Está cansada, mas não pode parar – os cães. Servis e covardes criaturas, agora em bandos, ameaçadores, rosnam como se fossem valentes, um para e uiva, deve estar vendo alma do outro mundo nas sombras do fim de tarde – todo agouro para o teu coro, animal tinhoso. Ninguém nas ruas, só ela e a criança. E os cães. Lambendo as feridas da mulher e do menino estatelados no asfalto do cruzamento.

Não devia ter roubado a criança. Não devia. Sabia que seria castigada.

Caminha com o menino, de mãos dadas, pelo bairro desolado. Devagar. Para não atiçar os cães.

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