Peguete

Lúcia Bettencourt

 

O nome foi cuspido com raiva, os sons saindo molhados e contundentes, na companhia de perdigotos:

–    Peguete!

A intenção era ferir, humilhar. No entanto, a palavra raivosa foi neutralizada por uma risada orgulhosa e cristalina, livre da culpa e da vergonha. E a menina continuou saracoteando suas pernas finas, envoltas em botas e meias, encimadas por uma saia tão curta que mais parecia um babado.

–      Beijar é bom!, ela admitiu sem culpa, sem remorsos.

A blusa com dizeres que a velha não compreendia caía por um de seus ombros, e deixava à mostra a alça do sutiã desnecessário, mas colorido e cheio de fitas como um chamariz.

–      Esse homens querem te passar na cara, te usar, e te deixar mais imunda do que um pano de chão!

–      Passar na cara? O que é isso?

A velha achou que a menina debochava, que zombava de seus avisos irados, mas bem intencionados. Na verdade, a garota não entendia o que a avó lhe gritava com tanto amargor e ressentimento. Era uma questão de vocabulário, a menina pertencia a uma geração sem lenços, sem culpas rodrigueanas, sensorial. Pensava apenas no beijo, nos diversos e variados sabores do beijo, nas texturas. A avó não entendia que ir a uma festa sem beijar era o mesmo que, em outras eras, teria sido ir à festa sem provar os brigadeiros e cajuzinhos, hoje desaparecidos.

–      Vergonha!, uivou a velha, que desejava evitar a qualquer custo que a menina saísse de casa, e que por isso tentava chegar à porta de entrada, para trancá-la e sumir com a chave dentro do decote.

–      Vovó, me dá isso aqui! Está ficando doida? Vai me colocar em cárcere privado?

Pois a garota estudava, ia a bons colégios, falava inglês e francês, tinha estudado balé e agora fazia aula de violão e de ginástica Ela sabia das coisas, falava com correção, sem os erros habituais daquela geração. Sua boquinha vermelha, pintada com gloss sabor cereja, se destacava carnuda no rosto pálido,  infantil. Com uma força insuspeitada, ela segurou o pulso da avó e venceu sua resistência. Abriu a porta, quis beijar a velha como despedida, mas a mulher, magoada, empurrou-a.

–      Você me dá asco!

–      Que é isso, vó? Não encana! As coisas hoje são assim, diferentes. Qual o problema em beijar?

–      Prá começar, é anti-higiênico!

A menina riu. Seria essa a objeção maior? Aquela avó que até pouco tempo atrás molhava o dedo no cuspe e esfregava no seu rostinho de criança para tirar a marca de doce que as duas comiam escondido da mãe? Aquela avó que às vezes a deixava ir para o colégio sem tomar banho, ou fingia que não tinha percebido que ela não tinha escovado os dentes?

–      Tomar coca-cola na latinha também é nojento, aquele mate da praia que você gosta também deve ser uma sujeira só… Desencana, vó, é a tal da vitamina S.

E, rindo e sacudindo a cabeça, entrou no elevador que escancarava a porta, já sem pensar no episódio, fazendo apenas uma revista de possíveis bocas a serem beijadas. A galera do colégio já não a interessava,  meninos e meninas já tinham sido beijados mais de uma vez.  Primeiro selinhos, quando eles ainda eram tímidos e inseguros de suas capacidades como beijadores. Depois os beijos de língua. Alguns eram realmente nojentos, com garotos desinformados que achavam que beijar era trocar cuspe. Outros realmente espetaculares, como a da menina  que lhe ensinara como a língua  pode e deve ser usada para o prazer, uma língua fresca e intrometida, que tomou posse de sua boca e a deixou ansiosa por mais. Ela pisou resoluta na calçada, encontrou com os amigos que já estavam esperando e ali mesmo trocaram beijos rápidos, uma espécie de promessa para a noite.

Em casa, sozinha, a velha remoía seu despeito, pensando nas muitas coisas que já ouvira a respeito dos desmandos dos jovens.  A neta, quinze anos, não tinha nada da ingenuidade de seus passados quinze anos, de valsa e festa. Lembrou-se de seu vestido rosa, com as flores de tecido presas ao ombro esquerdo. As luvas e o primeiro sapato de salto alto. Colar de pérolas, presente da avó materna, brincos de pérola, presente da avó paterna. A mãe com um vestido justo, de tafetá roxo e uns repuxados de filó cor-de-rosa. O rapaz, seu par da valsa, vermelho demais de tanto sol, os olhos verdes sorridentes, contemplando-a. Tudo tão puro, tão cristalino, tão inocente. O primeiro beijo trocado a susto, no corredor, apressado e desajeitado. O pedido de namoro. Suspirou, saudosa dos tempos em que sua boca não era murcha, quando as palavras de amor brotavam fáceis. O tempo secara sua boca. A solidão diminuíra seus lábios.  Foram tão poucos os beijos que trocara. Ela se sentia humilhada, tantos anos de vida, tão pouca experiência… Mas custava-lhe entender que sua própria neta beijasse e se deixasse beijar apenas pelo ato. Como beijar sem se comprometer? Como ser beijada sem cobrar um compromisso? Ela não entendia isso. Mas a neta estava feliz. Era uma menina saudável, alegre. No entanto… ela tinha medo, duvidava daquela felicidade. Como seria o futuro da garota? Desse jeito, ela em breve passaria do beijo para outros carinhos e já, já estaria trazendo namorados para seu quarto ainda cheio de bonecas, mas já abrindo espaço para pôsteres de cantores, imensos painéis de fotografias, que ela rearranjava quase todos os dias. E ela se angustiava, lembrando do comentário que escutara numa reunião de amigas da filha, quando uma delas se referiu à namorada do filho como uma “peguete”. “Você sabe, não? Aquela que todo o mundo pega”.  Era esse seu medo, não queria que sua neta ficasse com essa pecha, e, no entanto, ela mesmo cuspira a palavra em cima da garota, seu medo fazendo-a antecipar a possível  injúria. As lágrimas escorreram pelas suas faces secas, penduraram-se nos cantos caídos de sua boca.

No bar, a turma ria e se divertia. Conversas e risadas, bebidas apesar da falta de idade.  O tempo passava acelerado, as bocas se aproximavam e se afastavam. Outras bocas se testavam, algumas se encontravam e permaneciam exclusivas, afastando-se, aos poucos da brincadeira inconseqüente. A menina, de repente, sentiu-se cansada, quis ir para casa. Encontrou a avó sentada na sala, adormecida em frente da televisão.

O último beijo da noite foi na testa da avó, depois de ajudá-la a ir para a cama. A velha acariciou seu rosto, maravilhada com as faces tão jovens, de carne tão firme, lábios tão polpudos. Prometeu:

–      Amanhã te dou um caderninho.

–      Caderninho? Prá quê?

–      Prá você anotar os nomes, querida. Como Don Juan…

A neta não entendeu, mas era muito tarde, as duas estavam cansadas. E, mesmo depois da explicação, ela talvez não entendesse a simbologia das listas. Mas não importava.  As pazes estavam feitas.

Uma resposta to “Peguete”

  1. Natercia Says:

    Em tempos de UNIBAN, nada como momentos de tolerância e compreensão. Lindinho! Adorei!

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